Sexta-feira, 11 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 28 de julho de 2021
O Brasil registrou, do dia 1º de julho até esta quarta-feira (28), 35.026 mortes pela covid-19, segundo dados apurados pelo consórcio de veículos de imprensa junto às secretarias de Saúde do País.
Mesmo com queda em relação aos últimos meses, o número já é maior do que o de julho de 2020 – pior mês da pandemia no ano passado –, que teve 32.912 mortes.
Na média móvel, as mortes no País vinham em tendência de queda até o dia 22. Desde o dia 23, entretanto, vêm mostrando estabilidade.
Alerta
Para a epidemiologista Lucia Pellanda, da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), a queda nas mortes é um efeito positivo da vacinação – como outros especialistas já haviam apontado no início do mês – mas a reabertura e a retomada de atividades ainda estão sendo feitas antes da hora.
“Essa parece uma lição muito explícita que o vírus quer nos ensinar e a gente se recusa a aprender – a gente sempre flexibiliza antes da hora. Tanto no Brasil quanto globalmente. O grande risco é que, quando começa a melhorar, a gente começa a liberar tudo antes da hora. Todas as vezes aconteceu isso: cada descenso de pico a gente liberou antes da hora e acabou ficando num patamar alto”, alerta.
Ela lembra que, nos países ricos – onde não há falta de vacinas, como no Brasil, e a cobertura vacinal é maior – para a pesquisadora, o que há agora é uma “epidemia dos não vacinados”. Nos Estados Unidos, por exemplo, o Centro de Controle de Doenças (CDC) voltou a recomendar o uso de máscaras.
“A gente precisa de vacinação mais os cuidados – que é distanciamento, máscara, ventilação. Como isso foi muito flexibilizado, a gente está com uma transmissão muito descontrolada. Qual o risco? Surgimento de novas variantes”, alerta Pellanda. “Vacina é uma coisa maravilhosa, mas a gente precisa de vacina e comportamento, cuidados, e cuidados coletivos”.
A opinião de Pellanda é compartilhada pela também epidemiologista Ethel Maciel, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
“A gente na verdade tá cometendo o mesmo erro: lembra que, nesse período do ano passado, os governos estaduais acharam que a pandemia estava controlada – que inclusive a gente já tinha imunidade de rebanho? Que o pior já tinha passado?”, recorda Maciel.
A epidemiologista explica que, em relação a 2020, o único fator novo que o Brasil tem no combate à pandemia é a vacina. Outras estratégias, entretanto – como testar e fazer a vigilância genômica do vírus, para monitorar o surgimento de novas variantes – não têm sido adotadas.
“A única coisa diferente que foi acrescentada nessa estratégia foi a vacinação. Só que a gente tem, efetivamente, menos de 20% de pessoas vacinadas com o esquema completo. E a gente já sabe que essa variante delta tem um impacto nas pessoas que tomaram uma dose só. Então, vamos colocar nossa realidade: a gente tem mais de 80% das pessoas sem vacina ou com uma vacinação muito parcial”, lembra.
Ela critica o fato de taxas de ocupação de leitos de UTI estarem sendo usados para medir a situação da pandemia – como os índices estão baixos, há a crença de que há “mais espaço para as pessoas adoecerem”.
Com a reabertura neste momento, entretanto, há o risco de surgimento de novas variantes, aponta Maciel – e de mais casos, internações e óbitos.
“Nós achamos que isso não vai acontecer – é um tipo de pensamento mágico, porque a gente acha que não vai acontecer aqui: primeiro a pandemia não ia chegar, depois a segunda onda não ia ter, e aconteceu a mesma coisa aqui. Agora, a gente está vendo o que está acontecendo com a variante delta – estamos vendo o que está acontecendo com países que têm percentual de vacinados maior do que o nosso, e a gente não acredita”, alerta.
Para o pesquisador Paulo Nadanovsky, do Instituto de Medicina Social (IMS) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), prever o cenário dos próximos meses é complexo. Segundo uma projeção dele, o Brasil teria pouco mais de 64 mil mortes no segundo semestre – se tivesse 100% da população vacinada.
O próprio professor reconhece, entretanto, que isso “dificilmente” vai ocorrer. Mas faz ressalvas: o número de mortes em idosos deve continuar a cair, por exemplo, porque a cobertura vacinal vem aumentando.
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