Domingo, 01 de novembro de 2026
Por Redação O Sul | 7 de setembro de 2021
Passadas três semanas desde que retomou o comando do Afeganistão, a milícia fundamentalista Talibã anunciou oficialmente nesta terça-feira (7) os componentes do gabinete de transição do país. A lista inclui integrantes da “velha guarda” e foi divulgada no mesmo dia em que forças de segurança dispersaram com violência protestos na capital, Cabul.
Desde a tomada da cidade pelos milicianos e das promessas de um governo mais inclusivo, havia a expectativa sobre quem estaria no grupo de transição. A lista agora divulgada preocupa a comunidade internacional, por contar com líderes de um grupo apontado como terrorista pelos Estados Unidos e um chefe religioso que está na mira do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
A “velha guarda” é composta de expoentes da guerra civil que assolou o Afeganistão na década de 1990, após o fim da ocupação pela União Soviética (1979-1989). Na época, os rebeldes combatentes “mujahedins” eram financiados pelos Estados Unidos na luta contra as tropas soviéticas, em meio à Guerra Fria entre as duas superpotências mundiais.
Repressão violenta
O novo regime do Talibã, cujas bases tradicionais estão no interior do país, tem enfrentado protestos nas principais cidades, principalmente de pessoas que reclamam direitos.
Nesta terça-feira, manifestantes depositaram uma coroa de flores em frente à sede do Ministério da Defesa para homenagear os soldados afegãos que morreram lutando contra o grupo fundamentalista, antes de marcharem em direção ao palácio presidencial.
Um grupo de mulheres também protestou. “Essas pessoas são injustas, não são humanos e não nos dão o direito de protestar, nem mesmo são muçulmanas, mas infiéis”, bradou uma manifestante, antes de ser interrompida pelo som de disparos para o ar.
Várias pessoas foram detidas e agredidas, inclusive jornalistas. “Em mais uma indicação de que os novos governantes do Afeganistão não vão tolerar uma dissidência pacífica, o Talibã usou a força, mais uma vez, para esmagar um protesto de centenas de mulheres afegãs exigindo seus direitos hoje”, escreveu no Twitter a organização Human Rights Watch.
Também houve atos públicos em Herat, a cerca de 100 quilômetros da fronteira com o Irã, onde mulheres exigiram serem ouvidas pelo novo governo. Em resposta, um porta-voz do Talibã pediu que a população “tenha um pouco de paciência”.
Perfil da cúpula
O chefe do governo interino é o mulá Mohammad Hasan Akhund, hoje chefe do conselho do Talibã e que atuou como chanceler durante o primeiro governo do grupo, de 1996 a 2000. Também oriundo de Kandahar, espécie de “capital informal” do grupo, ele era um conselheiro próximo do fundador da milícia, o mulá Omar, morto em 2013 — essa proximidade o colocou na lista de sanções da ONU.
Outro nome de destaque é o de Abdul Ghani Baradar, segundo na linha de comando do Talibã. Ele chefiava o escritório político do grupo em Doha, no Qatar, e participou das negociações com os Estados Unidos que levaram à retirada das forças norte-americanas do país, concluída em 30 de agosto.
Também próximo do mulá Omar, Baradar foi chefe militar do Talibã da invasão americana de 2001 a 2010, quando foi preso no Paquistão — acabou libertado em 2018, no quadro do diálogo com os EUA.
Outra nomeações bastante questionada foi a do ministro do Interior, Sirajuddin Haqqani, um dos líderes da Rede Haqqani, hoje considerada terrorista pelo Departamento de Estado. Ele é filho de Jalaluddin Haqqani, um dos mais conhecidos “mujahedins” então financiados pelo governo norte-americano na luta contra os soviéticos.
Na primeira mensagem após o anúncio do governo, o líder do Talibã, o mulá Hibatullah Akhundzada, afirmou que o Gabinete fará o possível para restaurar a “paz, prosperidade e o desenvolvimento duradouro” do Afeganistão.
Ele pediu que os afegãos não deixem o país, prometendo que “ninguém terá problemas” com o novo regime, e afirmou que deseja ter “relações fortes e sãs” com os vizinhos e a comunidade internacional, prometendo respeitar os direitos humanos.
Ainda não há um movimento claro de reconhecimento das novas autoridades em Cabul, e os nomes anunciados não devem facilitá-lo. O Talibã depende disso para restaurar as linhas de crédito do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, suspensas depois de sua chegada ao poder.
As reservas no exterior do Banco Central afegão, estimadas em US$ 9,6 bilhões, também foram congeladas pelos Estados Unidos.
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