Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 7 de setembro de 2021
Os autores de um estudo baseado em um enorme projeto de pesquisa randomizado em Bangladesh dizem que seus resultados oferecem a melhor evidência de que o uso generalizado de máscaras cirúrgicas pode limitar a disseminação do coronavírus pelas comunidades.
O artigo pré-publicado, que rastreou mais de 340 mil adultos por 600 vilarejos rurais em Bangladesh, é de longe o maior estudo randomizado sobre a eficácia das máscaras em limitar a disseminação das infecções por coronavírus.
Seus autores dizem que o estudo oferece uma evidência real e conclusiva para aquilo que os trabalhos em laboratório e outras pesquisas já sugeriram fortemente: o uso de máscaras pode ter um impacto significativo em limitar a disseminação da covid-19 sintomática, a doença causada pelo vírus.
“Eu acho que, basicamente, isso pode encerrar qualquer debate científico sobre o fato das máscaras serem ou não efetivas para combater a covid no nível populacional”, Jason Abaluck , um economista de Yale que ajudou a liderar o estudo, disse em uma entrevista, chamando-o de “um prego no caixão” dos argumentos contra as máscaras.
Os pesquisadores estimam que, entre um grupo de adultos em Bangladesh do estudo que foi incentivado a usar máscaras, o uso subiu 28,8% após a intervenção. Quando rastreado, o grupo apresentou uma redução de 9,3% na soroprevalência da covid-19 sintomática, o que significa que o vírus foi confirmado por exame de sangue, e ainda uma redução de 11,9 % nos sintomas da covid-19.
Os autores do estudo, um time global que inclui pesquisadores de Yale, Stanford e da Green Voice, uma organização sem fins lucrativos, enfatizou que isso não significa que as máscaras foram apenas 9,3% efetivas.
“Eu acho que seria um grande erro ler esse estudo e dizer, ‘Ah, as máscaras só previnem 10% das infecções sintomáticas'”, Abaluck disse. “O número provavelmente seria muitas vezes maior se o uso de máscaras fosse universal”, ele disse.
O estudo está sendo avaliado por pares na revista Science. Os autores permitiram que os jornalistas tivessem um acesso antecipado aos resultados por conta de sua potencial importância nos debates acerca da saúde pública.
Especialistas independentes convidados a examinar a pesquisa elogiaram sua escala; alguns sugeriram que poderia ser o argumento mais convincente até agora para o uso de máscaras.
“Este estudo é incrivelmente desafiador mas muito importante de se realizar”, disse Megan Ranney, uma médica da emergência e professora na Brown University que não estava envolvida na pesquisa. “As pessoas anti-máscaras vivem dizendo, ‘Onde está o estudo controlado randomizado?’ Bem, está aqui.”
A grande escala do projeto, que começou em novembro e terminou em abril de 2021, é notável. Cerca de 178 mil moradores de Bangladesh estavam em um grupo de intervenção e foram incentivados a usar máscaras. Um adicional de 163 mil pessoas estava em um grupo de controle, no qual nenhuma intervenção foi feita.
O projeto avaliou os níveis de uso de máscara e distanciamento social através de observações diretas de uma equipe à paisana na comunidade, em mesquitas, mercados e outros pontos de encontro.
“Este é um projeto que não pode ser conduzido por pouca gente”, disse Abaluck. “Por isso há centenas de pessoas envolvidas no projeto. É por isso que o artigo tem… Nem sei quantos co-autores. Dezenas de co-autores.”
O uso de máscaras tornou-se obrigatório em Bangladesh a partir de março de 2020, embora a adoção tenha sido restrita. Os pesquisadores descobriram que foram capazes de aumentar o uso de máscaras no grupo de intervenção de 13% para 42% – um aumento de 28.8%. O resultado foi observado e mostrou-se consistente por dez semanas e continuou após as intervenções pararem.
O grupo atribuiu a um “coquetel” de quatro intervenções o aumento substancial do uso de máscaras na comunidade: fornecer máscaras gratuitas de porta em porta; dar informações sobre os benefícios das máscaras, reforçar o uso das máscaras e endossar o uso de máscaras pelos líderes locais de confiança.
O estudo contém um trio de observações-chave: primeiro, oferece ainda mais evidência de que as máscaras funcionam para proteger o indivíduo e a comunidade.
Segundo, indica que máscaras de maior qualidade oferecem maior proteção. E terceiro, o estudo mostra como motivar pessoas de uma comunidade a usarem máscaras, fazendo das máscaras uma norma social.
O estudo não quer ser a última palavra sobre as máscaras. Os autores descobriram que apesar das máscaras de tecido claramente reduzirem sintomas, eles “não podem rejeitar” a ideia de que, diferentemente das máscaras cirúrgicas, elas provavelmente protegem muito pouco das infecções sintomáticas pelo coronavírus, ou possivelmente não protegem nada.
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