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Geral Especialistas analisam o enfraquecimento do Exército russo na guerra

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Vladimir Putin usou a força do Kremlin para impedir o impacto da saída em massa de empresas estrangeiras. (Foto: Reprodução)

Um ano após a deflagração de uma ofensiva planejada para ser curta e decisiva, o sentimento entre os moscovitas varia entre o patriotismo, a resignação e o desalento. Há um consenso de que o governo de Vladimir Putin não estava preparado para a resistência demonstrada pelos ucranianos, tampouco para o apoio maciço do Ocidente em defendê-los do ataque de Moscou. A capacidade de combate do Exército russo – outrora fonte de orgulho – diluiu nesse período, eliminando as expectativas de uma vitória conclusiva de Moscou.

“É como uma garrafa de vodka pela metade que foi completada com água: parece igual, mas não é”, compara Ruslan Pukhov, diretor do Centro de Análise de Estratégias e Tecnologias.

Além disso, o esforço de guerra desvia cada vez mais recursos que seriam destinados a necessidades básicas do Estado, como infraestrutura, educação e saúde, o que em algum momento poderá se voltar contra o governo com um esgotamento do ânimo geral.

Para a capital de um país em guerra, Moscou exibe poucos sinais do conflito. Em alguns pontos da cidade há outdoors com imagens de soldados russos condecorados por ações no campo de batalha. A decoração de Natal do famoso Parque Gorki incorporou ao seu letreiro a letra “Z”, símbolo da operação militar russa, mas fora isso ela é raramente vista em Moscou. Munição para amplo bombardeio pela mídia estatal, o nacionalismo de guerra é pouco visto em Moscou.

Em conversas privadas, analistas russos avaliam que o país parece estar perdendo o conflito diante de um inimigo mais motivado e favorecido por equipamentos militares superiores fornecidos pelo Ocidente. Um deles ressalta, porém, que apesar dos reveses, as Forças Armadas mantêm “fidelidade canina” a Putin, e permanecerão leais ao Kremlin até o fim. Mas diante de uma situação que ele descreve como desesperadora no campo de batalha, cresce o risco de medidas extremas. Amais temida carta na manga russa é seu arsenal nuclear, o maior do mundo.

Mas mesmo a ameaça de usar armas nucleares insinuada por Putin não significa necessariamente uma vantagem para a Rússia, diz Pukhov. A dissuasão nuclear não funciona por si só, ela é “o lado afiado da espada”, mas precisa ser sustentada por outros fatores, como uma economia poderosa, “soft power” (capacidade de influência) e reputação, enumera o analista. Além disso, adverte Pukhov, não se deve superestimar os efeitos de um possível uso de armas nucleares táticas.

“Para obter resultados tangíveis seriam necessárias entre 50 e 80 bombas. Imagine um ataque nuclear maciço da Rússia contra um país vizinho. Em minha opinião, é melhor capitular do que chegar a esse cenário. Como isso seria visto pelo mundo, incluindo em países amigáveis a Moscou como o Brasil e a China?”, questiona.

Parecia um pesadelo distante até um ano atrás, mas ele passou a soar mais próximo da realidade para quem assiste aos debates sobre a guerra na TV estatal, nos quais especialistas e militares defendem abertamente a possibilidade de disparar armas nucleares não apenas contra a Ucrânia, mas contra os inimigos no Ocidente. O que levaria a ameaça nuclear escalar de ameaça para um ataque? Para Fyodor Lukyanov, um dos mais conhecidos analistas de política externa da Rússia, o risco se tornará real caso a Otan decida enviar tropas à Ucrânia. Seria uma mudança tão grande no jogo que poderia deflagrar rapidamente um confronto nuclear, diz ele.

O ceticismo sobre a possibilidade de suspensão dos combates num futuro próximo — com um acordo de paz ou um armistício — é dominante em Moscou, tanto entre especialistas quanto na população. Um ano após a invasão da Ucrânia, a sensação na capital russa é de que é preciso se preparar para um longo conflito.

“Não há nada a discutir, nenhuma base para acordo. As posições são muito claras: a Ucrânia exige que a Rússia deixe todo o seu território, enquanto a Rússia quer manter seus ganhos territoriais”, diz Lukyanov. “Os dois lados estão se preparando para grandes ofensivas. Os próximos meses serão, se não decisivos, ilustrativos para indicar oportunidades. Uma mudança só ocorrerá se houver uma profunda alteração no equilíbrio de forças.”

Ainda que a aprovação popular seja difícil de estimar, o poder de Putin não diminuiu neste período, afirma Lukyanov. Ao contrário, devido à natureza do sistema político russo, a dependência de Putin cresceu, pois ele tornou-se a única fonte de legitimidade do regime, afirma o analista. A ideia de que “sem Putin não há Rússia”, repetida pelo Kremlin, se enraizou na sociedade russa nas duas décadas do presidente no poder, e a oposição que restou no país é incapaz de revertê-la devido à repressão e à patrulha nacionalista.

“É uma tragédia terrível, o mesmo povo se matando. Se olharmos o governo da Ucrânia, a maioria dos nomes é russa. É como uma guerra civil”, conclui Lukyanov. As informações são do jornal O Globo.

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