Terça-feira, 16 de junho de 2026

Porto Alegre
Porto Alegre, BR
Patches of Fog

CADASTRE-SE E RECEBA NOSSA NEWSLETTER

Receba gratuitamente as principais notícias do dia no seu E-mail.
cadastre-se aqui

RECEBA NOSSA NEWSLETTER
GRATUITAMENTE

cadastre-se aqui

Carlos Alberto Chiarelli “Ventanista”

Compartilhe esta notícia:

(Foto: Claudio Fachel/Palácio Piratini)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Aconteceu há pouco mais de 50 anos. Era um domingo à noite, em Pelotas. Voltava de Gramado, acompanhado da mulher e filhos, depois de ter feito uma palestra para líderes sindicais rurais. Vinham de diversos sindicatos municipais dos quais era o consultor jurídico. Reclamavam das estradas municipais gaúchas – na época, muito mal tratadas. Em cada município, havia um grupo no sindicato, que eu normalmente visitava, e que me esperavam porque o “doutor” vai esclarecer sobre as leis. Ocorriam reuniões que, por falta de local, devido ao grande público, se fazia num estádio de futebol.

Havia um número expressivo de moças e moços, pretendendo entender as novidades – muitas delas, geradoras de benefícios sociais, que, até então, os rurícolas desejavam. O ambiente era de curiosidade e um pouco mais: de confiança.

Voltando ao domingo em Pelotas, chegamos em casa e a surpresa foi um momento de irritação, de perplexidade e até de desalento. As janelas abertas – largas dos quartos das crianças – foram o caminho usado pelo ladrão, agora recolhido a uma cela da cadeia da rua Padre Felício, para realizar o furto.

Na casa, roupas masculinas e femininas, grandes e pequenas, estavam atiradas nos quartos, no corredor; outras atadas em montes esquecidos, amarfanhadas. Quando convidado pelos dois delegados, o regional e o local, atravessei o pátio da velha delegacia. Era a tarde de segunda-feira. Cheguei em frente à cela do Peixotinho (nome do assaltante), que também era conhecido como “Ventanista”, simplesmente porque, em quase todos os assaltos, conseguia entrar nas residências pelas janelas. Daí, o apodo Ventanista – que significa janela, em espanhol – e pela qual normalmente realizava seus assaltos, conseguia abrir (quebrar, entortar) janelas (ou seja, ventanas, em espanhol) e realizar o assalto.

O criminoso, esquálido, magérrimo, aproximou-se quando me viu atravessando o jardim que dava acesso às grades. Quiseram me acompanhar os dois delegados de polícia, coisa que eu não gostaria que acontecesse, porque presumia que o ladrão não se animaria a falar o que eu queria ouvir. Ele, porém, adiantou-se e fez questão de me dizer: “Foi bom o senhor vir aqui, porque poderá saber as torturas, as falsidades documentais, as alterações dos depoimentos que se faz nesta casa. Os delegados nos perseguem e esses dois que estão a cercá-lo são dos mais agressivos. Aliás, vou contar para o senhor. Sou ladrão, mas eles roubam muito mais do que eu”.

Quando um delegado perguntou ao ladrão por uma correntinha de ouro desaparecida, e que eu tinha interesse em recuperar porque era um presente da avó para a neta, simplesmente não respondeu. Depois disso, dirigindo-se a mim, revelou que engolira pois, assim, evitava que lhe roubassem, na polícia, um bem valioso. E me disse: “Fique tranquilo, vou providenciar e devolver a correntinha”. Havia, no pátio, alguns policiais (inspetor, soldados da brigada, etc.) que, falando bem alto, Peixotinho mostrava que queria que ouvissem o que estava dizendo. Os delegados ao meu lado permaneciam impassíveis. Peixotinho prosseguiu: “As roupas roubadas, os policiais já retiraram do receptador, com quem eu “trabalho”. E que também “trabalha” com os delegados”. Aí me falou que ficara muito enamorado de um casaco de camurça que encontrara no meu guarda roupas. Estava vestindo a peça. Perguntou-me se eu não daria para ele. Disse – o episódio foi no inverno – que na cela passava muito frio e o casaco poderia diminuir o sofrimento e que também precisaria de cobertor porque nada lhe fora oferecido. Respondi que ele poderia ficar com o casaco e que o cobertor mandaria alguém entregar para ele.

Falei depois aos delegados que o ladrão precisava de um exame médico e remédios, porque sua aparência era realmente de alguém muito doente. Disseram-me que ele era tuberculoso, o que me levou a aumentar o mínimo de tratamento a uma pessoa humana. Em 24h tudo aconteceu: dei o cobertor e ele devolveu a correntinha. Mandei um bilhete: “Não estou te premiando, apenas te dou a oportunidade de te corrigires. Se fizeres isso, posso te ajudar. Se não fizeres, não contarás comigo”. A resposta: “Obrigado, doutor. Vou tentar”.

A deficiência do sistema penal e a desigualdade entre os brasileiros deram-lhe a tuberculose que o matou três anos e meio depois. Era culpado, mas também a sociedade e seus representantes, especialmente as autoridades do setor, eram sócios na culpabilidade.

Peixotinho era um deserdado do destino. Quando a sociedade viesse a condená-lo, ele já estaria condenado pela total falta de oportunidades que essa mesma sociedade não lhe ofereceu. Os delegados representam a realidade do quadro do qual Peixotinho era o autor principal. E também vítima.

 

Carlos Alberto Chiarelli foi ministro da Educação e ministro da Integração Internacional  carolchiarelli@hotmail.com

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Compartilhe esta notícia:

Voltar Todas de Carlos Alberto Chiarelli

Deixe seu comentário

Os comentários estão desativados.

Panorama Político
Oposição cobra imagens secretas do rolo em Roma
Pode te interessar

Carlos Alberto Chiarelli Um presidente para (ou de) todos

Carlos Alberto Chiarelli Democracia: um risco necessário

Carlos Alberto Chiarelli Quem é ELE?

Carlos Alberto Chiarelli Crônicas da água