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Política 10 anos da Lava-Jato: após prisão de empreiteiros, o setor de construção civil viu seu faturamento despencar e a ascensão de empresas médias

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Muitas empreiteiras já estão reabilitadas a trabalhar para o governo, que voltará a investir em infraestrutura. (Foto: José Paulo Lacerda/CNI)

Dez anos após a Lava-Jato ter sido oficialmente deflagrada, o setor de construção pesada do País ainda reflete os efeitos da operação, segundo especialistas, mas vem buscando novos caminhos para retomar o crescimento.

Muitas empreiteiras já estão reabilitadas a trabalhar para o governo, que voltará a investir em infraestrutura. Mas elas também estão ampliando sua atuação no setor privado, devido a concessões e projetos de parceria público-privadas (PPPs).

Ao longo da Lava-Jato, as principais companhias do setor entraram na mira de investigações por esquemas de cartel em contratos públicos e fecharam acordos de leniência com pagamentos de multas bilionárias.

Altos executivos foram condenados e chegaram a ficar presos por crimes como organização criminosa, lavagem de dinheiro e corrupção, como Marcelo Odebrecht, ex-presidente da Novonor (antiga Odebrecht), Otávio Marques de Azevedo, ex-executivo da Andrade Gutierrez, e Dario Queiroz Galvão Filho, ex-presidente da Galvão Engenharia.

Com o encolhimento das grandes construtoras no período, surgiram novos concorrentes, com crescimento de médias e pequenas construtoras, que formaram consórcios para ganhar obras ou conseguiram criar musculatura por conta própria. No mercado, nomes como Construtora Passarelli e Dimensional Engenharia são citados como empresas que expandiram suas atividades em infraestrutura.

Números do IBGE mostram que as médias construtoras (com 5 a 29 empregados) somam no País 6.347, mais que o dobro das consideradas grandes. Já as pequenas (com 1 a 4 pessoas) somam 6.682. Concorrentes estrangeiras, como empresas chinesas e europeias, também assumiram obras de infraestrutura.

Negócios

Desde julho passado, três grandes empreiteiras foram reabilitadas a prestar serviços para a Petrobras, alvo das denúncias iniciais da Lava-Jato, entre elas a Novonor, Andrade Gutierrez e UTC. Braço de engenharia e construção da Novonor, a OEC tem como meta conquistar pelo menos R$ 10,2 bilhões em novos negócios até 2027, segundo último relatório de demonstração financeira publicado em setembro de 2023. O desempenho da empresa, cujo patrimônio é negativo em R$ 16 bilhões, é considerado fundamental para a retomada da Novonor, que está em recuperação judicial.

Após a Lava-Jato, a construtora baiana OAS mudou de nome e se dividiu em duas: a Coesa e o Grupo Metha. A Metha tem entre suas empresas a KPE Engenharia, que atua com infraestrutura pesada, e os números públicos mais recentes apontavam contratos de cerca de R$ 1,8 bilhão em obras. Outra empresa, da holding, a E2, administra estádios de futebol como a Arena Fonte Nova, Arena do Grêmio e Arena das Dunas.

A outra metade da empresa virou a Coesa, um novo grupo, com outros sócios, formado a partir dos ativos “dispensados” pela Metha. Embora tenham avançado no setor privado, ambas as empresas atualmente estão em recuperação judicial, com dívidas conjuntas que chegam a R$ 10 bilhões.

Já a Camargo Corrêa dividiu a construtora em duas empresas, a Camargo Corrêa Infra e a 4C, que ficou com as obras e negociações com a Lava-Jato. Em 2019 a empresa fechou o primeiro contrato relevante com o setor público depois da força-tarefa, para construir um trecho de 9,2 quilômetros do metrô de Salvador.

As parcerias público-privadas têm sido a aposta da Queiroz Galvão para crescer. Ela é a dona, por exemplo, da Concessionária Tamoios, que administra a rodovia que liga o Vale do Paraíba ao litoral norte paulista, num contrato de 30 anos.

Já a Andrade Gutierrez Engenharia, que teve faturamento de R$ 3,3 bilhões em 2023, tem sua carteira formada 100% por clientes do privado. O estoque de contratos já assinados alcança hoje R$ 10 bilhões. Antes da operação, atuava principalmente com obras públicas.

Recuperação

Em seu mais recente relatório, a Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib) avaliou que depois de uma queda de 50% no mercado de obras públicas devido à crise econômica, a epidemia de covid e à Lava-Jato, os investimentos em infraestrutura, especialmente no segmento de energia renovável, serão retomados.

Segundo a entidade, o Brasil tem mais de 500 projetos de PPPs nas várias esferas de governo. O Executivo federal, pelo novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), planeja investimentos de R$ 1,7 trilhão, com R$ 60 bilhões por ano saindo diretamente de seu orçamento até 2028.

Estrangeiras

Cláudio Medeiros, presidente do Sindicato Nacional da Indústria da Construção Pesada-Infraestrutura (Sinicon) observa que enquanto as principais construtoras brasileiras tiveram a queda da receita líquida superior a 80%, após a Lava-Jato, algumas empresas estrangeiras dobraram o faturamento no país. Ele diz que as construtoras estão tentando se recuperar, embora a atuação no mercado internacional seja baixa.

“Nossa representatividade no exterior é muito baixa. Mesmo o mercado interno mudou bastante. Durante o último governo, foi estabelecida uma nova modelagem para as poucas obras públicas em que o Estado privilegiou pequenas e médias empresas. As grandes sobreviveram a partir de contratos privados”, diz Medeiros.

Medeiros afirma que com o PAC e o programa Nova Indústria Brasil o setor vai tentar voltar a um melhor nível de crescimento.

 

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