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César Vergara de Almeida Martins Costa O Rio Grande é um abraço

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(Foto: Gustavo Mansur/ Palácio Piratini)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

A Estância é de São Pedro. E São Pedro está incomodado. De repente, a mão de rios avistada pelos colonizadores portugueses tornou-se garra, que com fúria olímpica devastou o Rio Grande. Tornamo-nos cordeiros guachos1, num balido único, procurando, no pampa, a mãe perdida.

Apesar de todas as nossas diferenças e nossos arraigados preconceitos, todos nós, os “pelo duro”, “os pretos”, os “bugres”, os “alemães-batata” e “os gringos” tornamo-nos um só. Amanhecemos lanceiros2 e adormecemos Charruas3 em volta do fogo, em busca de um conforto perdido em algum galpão empoeirado.

Foi como se o mate amargo4 estivesse estado lá, sempre, como um aviso: há que se ter equilíbrio entre o verde da erva e o calor da água. E como se algum desavisado, ao adentrar no galpão, boleando5 o pala6, derrubasse a cuia7. Foi-se a erva, foi-se a água, fez-se o estrago.

Na década de 90, meu pai tinha uma égua tostada que sofreu um acidente num barranco, na velha Chácara da Cascata. Tinha sido presente de um sobrinho querido. O nome, Lixiguana (chuva fina que cai de lado). O veredito foi uníssono, era caso de sacrifício. Não conformado com isso, levei a égua à Clínica da Hípica. Operada por mão de fada, a égua se reergueu. Não serviu mais para montaria, mas embelezava o campo e ainda deu para tirar uma cria. E que baita8 cria. O tratamento foi longo e cansativo. Naquela ocasião, a égua foi rebatizada com o nome de “Esperança”.

Enfim, tem sempre um cavalo envolvido. O cavalo Caramelo não resistiu firme no telhado a troco de nada. Resistiu para lembra-nos que nós, gaúchos, somos centauros. Combalidos, mas centauros.
Chove torrencialmente, mas tornamo-nos abraço. E aos poucos a ele juntaram-se mãos amigas, vindas do Sul, Sudeste, Centro-oeste, Norte, Nordeste, de todos os mais recônditos cantos do Brasil, para lembrarmos que fazemos parte de algo maior e íntegro.

Um abraço oriundo da adversidade, mas que contém aquilo que os gregos denominavam filotimia (apreço pela honra, pela dignidade), a philia (amizade, afeição) e eunoia (benevolência). Estamos crescendo. A cada alvorecer somos mais gaúchos e menos guachos. E vamos reconstruir o Rio Grande. Como dizia o poeta:

“vai-se um ano, mais outro, não me iludo
foram tantas lixiguanas pelegueadas
Eu sinto frio mas apesar de tudo
O meu destino é andar quebrando geada”9

Se nessa pelegueada10 conseguirmos nos tornar um Estado mais atento à mãe terra e à Justiça Social, teremos feito nossa maior façanha. E não seremos apenas o modelo, seremos gigantes.

  1. Guacho – animal sem mãe, amamentado com leite que não é o materno
  2. Alusão ao Lanceiros Negros –  negros livres ou de libertos pela República Rio-Grandense que lutaram na Revolução Farroupilha.
  3. Alusão aos índios charruas que habitaram a região dos pampas do Rio Grande do Sul, do Uruguai e do sul da Argentina.
  4. Chimarrão – infusão de erva-mate que passa de mão em mão.
  5. Bolear – sentido figurado – alçar, girar.
  6. Vestimenta típica do gaúcho – Poncho.
  7. Recipiente de cabaça onde se faz o chimarrão.
  8. Expressão gauchesca: grande, enorme.
  9. Jayme Caetano Braun -Geadas
  10. Luta, batalha, combate

(César Vergara de Almeida Martins Costa – Advogado membro do Conselho Superior do Instituto dos Advogados do Rio Grande do Sul)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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