Sexta-feira, 07 de agosto de 2026
Por Redação O Sul | 12 de julho de 2025
As incertezas em torno da tarifa de 50% imposta por Donald Trump aos produtos brasileiros a partir de agosto têm levado empresas dos mais variados setores a alterarem, do dia para a noite, sua estratégia logística.
A Frescatto, maior empresa do setor de pescado do país, que exporta para os Estados Unidos lagosta e peixes tropicais como o pargo (conhecido como red snapper), avalia exportar os itens de avião ao longo das duas próximas semanas como forma de escapar da tarifa de 50%.
Segundo Rafael Barata, diretor de Comércio Exterior da Frescatto, no caso da lagosta, o custo de embarcar de avião fica cerca de 10% mais caro em relação às despesas atuais com o transporte de navio. Já no caso de outros peixes, o aumento chega a 30%.
“Estamos estudando isso, pois a dúvida é se os 50% valem a partir da saída da mercadoria do Brasil ou da chegada aos EUA. Isso ninguém sabe dizer, nem as empresas americanas, pois o anúncio foi feito em uma carta, sem especificar regras. O fato é que os 50% ainda não existem. Mas 50% de tarifa está fora de cogitação. Então, nesse primeiro momento, todo mundo está cauteloso e com uma postura conservadora, esperando o que vai ocorrer nos próximos dias”, afirma Barata.
Segundo o executivo, o cenário de incerteza fica ainda mais crítico, já que, se o Brasil decidir praticar a reciprocidade tarifária, as empresas americanas vão buscar outros fornecedores. E, ao mesmo tempo, o Brasil vai enfrentar queda de preços, porque perderá poder de barganha em outros mercados, como a China.
“Por isso, é preciso agir com calma. Ainda não deu tempo de sentar à mesa com o governo para conversar. Precisamos aproveitar esse momento para que o Brasil consiga rever as negociações com a União Europeia, que não compra peixes do Brasil há seis anos. Estamos trabalhando para buscar mercados na China, Taiwan, Coreia, Oriente Médio e Austrália.”
Assim como a Frescatto analisa o uso de aviões, outras empresas estão alterando seu planejamento. Pamela Manfrin, CEO da Della Foods, fabricante de alimentos em pó, diz que há uma corrida dos compradores americanos contra o tempo para acelerar alguns pedidos e embarques de navio antes da eventual entrada em vigor das tarifas.
“Há uma percepção de urgência por parte dos clientes americanos para garantir volumes com as condições atuais, mas isso depende da disponibilidade de matéria-prima e capacidade de armazenagem. Como o decreto ainda não foi formalizado, nenhuma negociação foi suspensa até o momento.”
Segundo ela, o principal risco é a necessidade de redirecionar estoques planejados para os EUA, o que cria um cenário de maior oferta em mercados alternativos e pode levar à queda nos preços médios de venda:
“Como trabalhamos com produtos de alto valor agregado e prazo de validade justo, isso pode significar redução de margens, pressão logística e necessidade de renegociar prazos e condições. Parte dos volumes que seria embarcada a partir de agosto está sendo replanejada”, afirma Pamela, que acrescenta: “Repassar 50% de tarifa ao consumidor final praticamente inviabiliza a venda em muitos segmentos. Há insegurança sobre possíveis retaliações e sobre a duração efetiva da medida. Para nós, o grande ponto crítico é garantir previsibilidade para o planejamento da produção e exportação, sem gerar custos logísticos desnecessários.”
Pamela classifica como positiva a iniciativa do governo Lula de diálogo com o setor produtivo, mas ressalta que, até agora, não obteve informações detalhadas sobre medidas concretas: “É fundamental que o governo brasileiro atue de forma coordenada com empresas exportadoras, associações setoriais e os ministérios envolvidos. Como prioridade, acreditamos que seja necessário abrir canais diplomáticos de negociação imediata com os EUA para tentar reverter ou ao menos reduzir o impacto, além de avaliar medidas de apoio, como linhas de crédito e facilitação do acesso a outros mercados, e criar mecanismos de compensação para as empresas que investiram no mercado americano.”
Simão Pedro de Lima, diretor-presidente da Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado (Expocacer) explica que o café que for exportado hoje já não chega antes do início de agosto. Por isso, diz que as empresas não falam em antecipar os embarques. Por outro lado, não cogitam postegar as exportações, pois é ficar ainda mais exposto ao cenário de incerteza.
“A única solução é que o governo brasileiro negocie com o americano de forma diplomática. O que está acontecendo hoje é a interrupção de novos negócios”, diz Lima, lembrando que o café brasileiro responde por 30% do café importado pelos EUA.
Ele destaca que, no caso do produto, o principal prejudicado é o mercado americano, que precisa do café brasileiro para fazer as misturas com produtos de outros países, processo chamado de blend.
“E, com isso, os EUA não conseguem do dia para noite buscar novos fornecedores, assim como o Brasil.” As informações são do jornal O Globo.
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