Sexta-feira, 29 de agosto de 2025
Por Guto Lopes | 29 de agosto de 2025
Preços recuaram em setores decisivos do orçamento das famílias
Foto: Valter Campanato/Agência BrasilEsta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editorias de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
O Brasil registrou em agosto um fenômeno raro: deflação. Os preços recuaram em setores decisivos do orçamento das famílias, como energia elétrica (-4,93%), combustíveis (-1,14%) e alimentos, que apresentaram queda pelo terceiro mês consecutivo. O índice oficial, que mede a variação do custo de vida, mostra um alívio real no bolso do consumidor.
Entretanto, esse movimento contrasta com a manutenção da taxa básica de juros em patamar historicamente elevado: 15% ao ano. A contradição é evidente. Se a inflação recua, por que o crédito continua tão caro?
O efeito sobre a economia real é direto. Microempreendedores individuais (MEIs), pequenos comerciantes e profissionais autônomos encontram barreiras quase intransponíveis para acessar capital de giro a custos razoáveis. O financiamento imobiliário, para muitas famílias, se transforma em dívida sufocante. E o rotativo do cartão de crédito já ultrapassa a marca de 400% ao ano — uma taxa que beira o insustentável e revela a assimetria do sistema financeiro.
Economistas apontam que não há, neste momento, justificativa técnica para a manutenção de juros tão altos. Ao contrário: a deflação sinaliza que a pressão de preços não é ameaça no curto prazo. O que se vê é a escolha deliberada por uma política monetária que prioriza a rentabilidade dos detentores de capital em detrimento do crescimento econômico.
Juro alto é, antes de tudo, uma decisão política. Ele inibe o investimento produtivo, limita a capacidade de expansão das empresas e sufoca o trabalhador, que paga mais caro no crédito para consumir ou empreender. Num cenário de deflação, essa escolha se mostra ainda mais questionável.
A próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para os dias 11 e 12 de setembro, será decisiva. O encontro definirá se o Banco Central continuará a sustentar um modelo que penaliza a economia real ou se dará sinais de que pretende alinhar a política monetária à realidade dos preços.
O Brasil precisa de crédito justo, acessível e que estimule a geração de emprego e renda. Sem isso, a deflação que hoje alivia o bolso do consumidor pode se transformar em estagnação prolongada — com a conta, mais uma vez, recaindo sobre quem produz e trabalha.
* Guto Lopes, comunicador da Rede Pampa
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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