Quarta-feira, 17 de junho de 2026

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Alexandre Teixeira G. de Castilhos Rodrigues Ensinar a Pescar: crônica de um Brasil que quer andar com as próprias pernas

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Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Num fim de tarde qualquer, à beira do Rio Jacuí, vejo um menino com vara simples e paciência de velho. Um senhor se aproxima e lhe entrega um peixe já limpo. O menino agradece — a fome passa —, mas os olhos continuam na água, atentos ao movimento das ondas. É essa a imagem que me veio quando li, neste mês, o anúncio do “Reforma Casa Brasil” e pensei também no Bolsa Família. São políticas relevantes: aliviam urgências, dão teto e comida, fazem a vida imediata caber no prato e no travesseiro. Não é hora de bater no governo; é hora de reconhecer o bom do socorro — e, ao mesmo tempo, perguntar: como transformar alívio em autonomia?

O provérbio que dá título a este texto não é um slogan: é um método. Dar o peixe salva o dia; ensinar a pescar salva trajetórias. Se quisermos um Brasil de primeiro mundo, precisamos montar — com calma e coragem — a nossa caixa de pesca: educação básica robusta, ensino técnico de qualidade, faculdades ligadas ao mundo real, segurança jurídica que atraia investimento, infraestrutura que faça o país fluir (estradas, ferrovias, portos, energia, saneamento), ambiente de negócios simples e previsível e ciência e tecnologia sem medo de errar e acertar.

Muita gente cita exemplos lá de fora para nos menosprezar; eu prefiro olhar para aprender. A Índia, por exemplo, não virou outra da noite para o dia. Foi costurando reformas, abrindo espaço para serviços e tecnologia, criando polos que conversam com o mundo, ampliando a inclusão rural, eletrificando vilas, irrigando campos e conectando talentos. Não é uma história perfeita — nenhuma é —, mas é o lembrete de que quando o conhecimento encontra oportunidade, a maré muda. E muda para muitos, não só para poucos.

No Brasil, temos os ingredientes e a fome de futuro. Falta-nos, por vezes, a cozinheira chamada gestão: metas claras, foco em resultados, continuidade de políticas públicas que dão certo e humildade para corrigir rumos quando não funcionam. Assistência social bem desenhada é ponte, não destino; é cais, não mar. Ela precisa caminhar junto com a formação profissional, com o acesso ao primeiro emprego, com crédito responsável para pequenos negócios, com inovação que desengaveta ideias e as transforma em renda. Só assim passamos do prato cheio para a mesa posta — todo dia.

No campo, a modernização segue sendo anzol e rede: extensão rural, irrigação inteligente, tecnologia para pequenos produtores, cooperativismo e logística que não desperdice o esforço de quem plantou. Nas cidades, saneamento e moradia digna não são luxo; são piso civilizatório. E segurança pública é o farol que permite que a vida econômica navegue sem medo. Tudo isso exige investimento, parceria com o setor privado, bons marcos regulatórios e um Estado que coordene e não atrapalhe.

Também precisamos de confiança. Investimento estrangeiro não chega onde imperam a incerteza e o improviso. A regra tem de valer para todos, e o contrato tem de ser honrado — sem jeitinho. A burocracia deve ser escada, não labirinto. Quando o custo de cumprir a lei é maior do que descumpri-la, a sociedade perde o compasso e a economia desafina.

Falo de futuro, mas com os pés no chão: socialismo de vitrine e capitalismo sem freio já demonstraram seus limites. O caminho que melhor tem servido às democracias é o da economia de mercado com proteção social responsável — aquela que ampara na queda e impulsiona na retomada. Dar a mão, sim; puxar junto, melhor ainda.

Volto ao menino do começo. O peixe dado matou a fome do dia; a vara, a linha e o ensino paciente do vizinho farão diferença por toda a vida. O Brasil que desejo é esse: o país que não humilha com esmola nem abandona com  discurso, que cuida e capacita, que socorre e emancipa. Um Brasil que faça da Fraternidade mais do que palavra bonita: uma prática cotidiana de reconhecer no outro um projeto de futuro.

Se acertarmos o anzol do conhecimento, a isca da oportunidade e a coragem de lançar redes largas, o mar brasileiro — vasto de gente, ideias e recursos — deixará de ser promessa para virar colheita. E, nesse dia, veremos menos filas por peixes e mais gente voltando para casa com o que pescou: dignidade, trabalho, esperança.

Alexandre Teixeira G. de Castilhos Rodrigues, advogado e escritor – castilhosadv@gmail.com

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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