Quarta-feira, 04 de março de 2026
Por Edson Bündchen | 4 de março de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
A onipresença das tecnologias digitais está remodelando não apenas a forma como trabalhamos, nos comunicamos e nos informamos, mas também, e talvez de maneira mais profunda, como pensamos. A promessa de eficiência e acesso ilimitado ao conhecimento veio acompanhada de um efeito colateral silencioso: a erosão da leitura profunda, da concentração prolongada e do raciocínio complexo. Em vez de ampliar a inteligência coletiva, o ambiente digital parece estar produzindo uma nova clivagem social entre aqueles que desenvolvem capital cognitivo e aqueles que consomem, majoritariamente, “sucata mental”.
Vivemos fascinados pelas telas. A fragmentação da atenção, saltando de um link para outro, de um vídeo curto para um meme, de uma manchete para um comentário indignado, vai substituindo o engajamento reflexivo por estímulos rápidos, engraçados e descartáveis. O resultado é uma cultura cada vez mais orientada pela reação e menos pela reflexão. Como alertam pesquisadores como Maryanne Wolf, a leitura profunda, aquela que exige tempo, silêncio, esforço e empatia, está sendo pressionada por um ecossistema que recompensa a superficialidade. Essa superficialidade vai lentamente prejudicando a própria vontade do leitor enfrentar leituras mais desafiadoras, forjando hábitos menos densos e mais fragmentados.
Essa mudança é cognitiva, não somente cultural e aí reside um ponto essencial do problema que emerge. O cérebro leitor se forma ao longo de anos, por meio da prática de concentração prolongada, leitura de textos consistentes e contato com ideias complexas. Quando esse processo é interrompido ou nunca se consolida, perdem-se habilidades fundamentais, tais como o pensamento crítico, a imaginação, a capacidade de sustentar argumentos e a empatia moral. A tentação, num ambiente saturado de informação, é consumir apenas conteúdos de fácil digestão, vídeos curtos, frases de efeito, indignações instantâneas. O custo disso é alto e resulta em cidadãos menos críticos, menos reflexivos e mais vulneráveis à manipulação.
O problema é mais que apenas individual. Ele se torna estrutural. À medida que parte da população mantém acesso a uma educação que protege a leitura profunda e o pensamento crítico, outra parte se forma quase exclusivamente no ambiente da distração digital. Isso produz uma desigualdade menos visível que a econômica, mas também importante que é a desigualdade de recursos mentais. Um mundo polarizado não apenas por renda, mas por capital cognitivo.
Governos, afinal, emergem da população. Uma sociedade menos pensante tende a produzir lideranças menos pensantes, e mais ruidosas, impulsivas e tribais. O debate público se degrada quando a lógica da viralização substitui a lógica da argumentação. Em vez de diálogo, temos humilhação. Em vez de ideias, temos slogans. Em vez de política, espetáculo. Quem ganha com essa degradação mental são justamente aqueles que apostam nessa anemia intelectual, nesse deserto de ideias e num campo encharcado por emoções, muito delas primitivas, num apelo ao já surrado “nós contra eles” que tão pouco inspira ou constrói.
Nada disso significa rejeitar a revolução digital. Seus avanços são inegáveis e irreversíveis. O desafio é outro, ao contrário, é integrar as novas tecnologias sem abandonar os processos lentos e exigentes que formam o pensamento. Não há soluções binárias. O problema é complexo e, como tal, deverá ser enfrentado. A leitura profunda não será salva por decretos nem por nostalgia. Ela exige um esforço consciente, de pais, educadores e leitores experientes, para criar espaços de atenção, silêncio e continuidade.
Zelar pela formação do senso crítico e da empatia passa, inevitavelmente, pela leitura profunda. Como observou Susan Sontag, a natureza dos juízos morais depende da nossa capacidade de prestar atenção. E essa capacidade, embora limitada, pode ser cultivada. O futuro da democracia, da cultura e da própria inteligência coletiva depende de não abandonarmos essa tarefa no meio do caminho.
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
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