Sábado, 21 de março de 2026
Por Edson Bündchen | 19 de março de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
A crença de que a tecnologia conduz inevitavelmente à prosperidade coletiva é reconfortante, mas equivocada. A história do capitalismo demonstra que o avanço técnico pode gerar riqueza extraordinária sem, contudo, melhorar de imediato a vida da maioria. Quando a melhoria ocorre, quase nunca é automática. Ela resulta de disputas políticas, reformas institucionais e reequilíbrios de poder.
Nas primeiras décadas da Revolução Industrial, o salto de produtividade proporcionado pelas novas máquinas concentrou renda e ampliou desigualdades. Jornadas extenuantes, salários comprimidos e condições insalubres marcaram o cotidiano dos trabalhadores urbanos. O crescimento econômico coexistia com precariedade social. A prosperidade compartilhada só começou a se consolidar após intensa mobilização social, organização sindical e mudanças legislativas que limitaram jornadas, proibiram o trabalho infantil e estabeleceram direitos básicos.
O progresso, portanto, não se distribui sozinho. Ele é moldado pelas estruturas de poder vigentes. Esse padrão histórico encontra paralelo no presente. O Vale do Silício simboliza o dinamismo da economia digital. Empresas de tecnologia acumulam valorizações trilionárias, controlam volumes inéditos de dados e lideram avanços em inteligência artificial, automação e biotecnologia. A promessa é de eficiência, inovação contínua e democratização de oportunidades. A experiência concreta, porém, revela um cenário mais ambivalente.
A digitalização produziu lucros extraordinários e concentração patrimonial significativa. O mercado de trabalho tornou-se mais polarizado, com expansão simultânea de ocupações altamente qualificadas e de trabalhos precarizados mediados por plataformas. Em diversos setores, a inteligência artificial é implementada com foco na substituição de funções e na redução de custos, comprimindo salários e enfraquecendo o poder de barganha.
Tecnologia não é uma força neutra da natureza. Resulta de escolhas institucionais, incentivos econômicos e prioridades políticas. Quando o poder econômico se concentra, tende a direcionar a inovação para reforçar sua própria posição. No século XIX, industriais resistiram à legislação trabalhista. No século XXI, gigantes digitais resistem a regulações sobre concorrência, dados e responsabilidade algorítmica. Em ambos os contextos, a disputa central envolve a apropriação dos ganhos de produtividade.
Momentos de transformação tecnológica configuram encruzilhadas institucionais. A inovação pode ser orientada para complementar o trabalho humano, ampliando a produtividade de profissionais qualificados e de pequenos empreendedores. Pode, ao contrário, ser guiada predominantemente pela lógica da substituição e da maximização de margens. A trajetória adotada depende da qualidade das instituições e da capacidade da sociedade de impor contrapesos democráticos ao poder econômico.
Prosperidade compartilhada exige políticas de concorrência eficazes, tributação compatível com lucros extraordinários, proteção social adaptada às novas formas de trabalho e investimento consistente em educação e requalificação profissional. Exige também debate público qualificado sobre governança da inteligência artificial e sobre o papel do Estado na orientação do desenvolvimento tecnológico.
O Brasil, marcado por desigualdades históricas, enfrenta risco duplo: absorver passivamente tecnologias que ampliem a concentração de renda ou perder competitividade por ausência de estratégia. A alternativa está na construção de um ambiente institucional capaz de estimular inovação que complemente o trabalho, fortaleça cadeias produtivas e amplie o acesso a oportunidades tecnológicas.
A Revolução Industrial demonstrou que o crescimento econômico não garantiu, sem que houvesse mobilização trabalhista, ganhos compartilhados entre capital e trabalho. A revolução digital coloca desafio semelhante em escala global. A tecnologia pode ampliar oportunidades ou consolidar privilégios. A diferença reside menos nos algoritmos e mais nas regras que estruturam sua utilização.
(Instagram: @edsonbundchen)
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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