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Saúde “A resposta para combater o Alzheimer pode estar nas pessoas saudáveis, como Fernanda Montenegro”, diz neurocientista brasileiro

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Medicamento reduz velocidade de progressão da doença, mas não promove melhora dos sintomas. (Foto: Reprodução)

Em 2023, a Nature Medicine, uma das publicações científicas internacionais mais prestigiosas, escolheu o neurocientista carioca Mychael Lourenço como um dos 11 jovens cientistas mais promissores do mundo. Acertou em cheio, aos 36 anos, Lourenço acaba de ganhar mais um reconhecimento: o ALBA-Roche Prize for Excellence in Neuroscience Research 2026, que homenageia estudos que transformam a compreensão sobre a doença de Alzheimer.

A carta de premiação destaca que Lourenço criou um programa de pesquisa “distinto e internacionalmente reconhecido”, que ajuda a entender por que a memória e o raciocínio pioram na doença de Alzheimer e como problemas no metabolismo e inflamações afetam as conexões entre neurônios e o equilíbrio das proteínas no cérebro. O prêmio ressalta ainda o fato de o cientista ter realizado pesquisas de alto nível de originalidade e impacto, mesmo no cenário de “financiamento desafiador do Brasil”.

A seguir, Lourenço, à frente do Laboratório de Neurociência Molecular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica por que compreender por que alguns nonagenários, a exemplo de Fernanda Montenegro e Toni Tornado, se mantêm com mente brilhante e a memória afiada enquanto gente três décadas mais jovem vê a cognição declinar pode levar a um caminho para prevenir e tratar a doença de Alzheimer.

O pesquisador, que tem o apoio da iniciativa IDOR Ciência Pioneira, também traça um cenário sobre os avanços em medicamentos e testes esperados para este ano.

– Qual sua atual linha de pesquisa? “Eu e meu grupo trabalhamos em duas frentes. A primeira é, em vez de só olhar o cérebro doente, como se costuma fazer, buscar pistas nas pessoas que se mantém resilientes ou resistentes ao Alzheimer. Fernanda Montenegro (96 anos) e Toni Tornado (95 anos) são exemplos marcantes de gente que vive muito sem declínio cognitivo. A ideia é usar amostras de pacientes para entender os mecanismos de resistência e resiliência.”

– Qual a diferença entre eles? “Existem pessoas resistentes. Mesmo em idade avançada, o cérebro delas não apresenta as placas de beta-amiloide e tau (nomes de proteínas formadoras de placas) características do Alzheimer. E há as pessoas resilientes, o cérebro delas desenvolvem placas, mas elas não apresentam sintomas de demência. Acreditamos que a resposta para combater o Alzheimer pode estar nas pessoas saudáveis.”

– E qual a sua hipótese para o cérebro jovem de gente idosa? “Eu e meu grupo trabalhamos com a hipótese de que o processo que controla a produção de novas proteínas e neurônios no cérebro está por trás disso. O cérebro de algumas pessoas continua a produzir o que precisa para funcionar corretamente, mesmo em idade avançada. Mesmo que as placas se formem, elas não chegam a afetar significativamente a memória, a cognição. Se conseguirmos compreender o que desregula esse processo, poderemos encontrar alvos para combater a doença. Por que atualmente o que se faz é usar drogas para tentar bloquear a beta-amiloide, formadora das placas, mas isso está longe de ter resultados realmente satisfatórios.”

– Qual o papel das placas? “O consenso hoje no mundo é que quem tem acúmulo de beta-amiloide (proteína produzida naturalmente pelo cérebro que, em pessoas com Alzheimer, se acumula e forma placas entre os neurônios. As placas atrapalham a comunicação entre as células nervosas e estão ligadas à perda de memória e dificuldades cognitivas) tem Alzheimer. Mas, sabemos que existem pessoas com placas e um quadro quase imperceptível de Alzheimer e outras que estão com demência avançada. O que faz essas pessoas sem sintomas tão resilientes a despeito das placas? O que faz as demais adoecerem? Acreditamos que responder a essas perguntas nos ajudará a intervir nesse processo e, esperamos, deter o avanço da doença.”

– E o que mais estão investigando nesse momento? “Queremos identificar biomarcadores para diagnóstico da doença de Alzheimer na população brasileira. Os marcadores existentes são de populações distintas da nossa, que é única no mundo, altamente miscigenada. Eles vêm da Suécia, por exemplo, onde há fatores de risco diferentes dos nossos.”

– Como poderão ser usados esses marcadores? “Esse tipo de marcador pode, por exemplo, contribuir para acompanhar a resposta a novos medicamentos, como os feitos com anticorpos monoclonais (proteínas produzidas em laboratório para reconhecer e atacar um alvo específico no corpo, como a placa de beta-amiloide). Hoje, um teste para descobrir que se tem risco de desenvolver Alzheimer ou a doença já estabelecida não adianta muito para uma pessoa, não existem formas de prevenção e tratamento eficientes. Queremos descobrir formas de intervir.”

– E o que existe hoje no mundo aprovado ou em vias de aprovação para combater a doença de Alzheimer? “Se tem avançado, ainda que lentamente. Não é por falta de esforços, mas porque se trata de uma doença altamente complexa. O primeiro medicamento só surgiu nos anos 1990, em 2003 tivemos a memantina. Em 2018, o aducanumabe, um anticorpo monoclonal, que até reduzia as placas, mas não melhorava a cognição. Não funcionava como se esperava, mas abriu portas.” As informações são do jornal O Globo.

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