Sábado, 16 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 13 de maio de 2026
Os líderes das duas maiores economias do mundo – Xi Jinping e Donald Trump – iniciam nesta quinta-feira (14) uma cúpula em Pequim, suas primeiras conversas presenciais em mais de seis meses. Trump retorna à China pela primeira vez em nove anos, em uma tentativa de estabilizar as relações tensas dos EUA com o gigante asiático, devido ao comércio, à guerra no Irã e a outros temas.
O americano desembarcou nessa quarta-feira (13) em busca de resultados para seu eleitorado, cada vez mais insatisfeito com sua gestão, segundo as pesquisas. A agenda é densa e passa por temas como guerra, tarifas, terras raras e inteligência artificial (IA).
A cerimônia de boas-vindas e a reunião bilateral ocorrem nesta quinta-feira (no horário local), seguidas de uma visita ao Templo do Céu e um banquete de Estado. Por volta das 23h dessa quarta-feira no horário de Brasília, Trump foi recebido por Xi Jinping. Na sexta-feira, os dois almoçam juntos antes de Trump retornar a Washington.
O encontro será bem diferente do que se imaginava quando foi programado, meses atrás. Ele estava inicialmente previsto para março, mas o americano adiou alegando que queria dar prioridade à gestão do conflito no Irã. O adiamento, porém, não resolveu o problema, apenas o levou para dentro da sala de reuniões. A guerra, segundo especialistas, desgastou a posição americana às vésperas do encontro.
Funcionários americanos afirmam que Trump deve pressionar Xi sobre o assunto. “O país na mediação do conflito é o Paquistão, que tem uma dependência muito grande, estratégica e militar, da China”, afirma Feliciano de Sá Guimarães, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP.
Para Guimarães, o conflito representa um erro estratégico que reforça a posição chinesa. A China é o maior comprador de petróleo do Irã e importa cerca de 1,4 milhão de barris por dia – 90% das exportações totais iranianas. “Os americanos afetaram diretamente um supridor fundamental de petróleo para a China.”
Na pauta econômica, analistas avaliam que o governo chinês deve buscar resultados pragmáticos, como alívio tarifário limitado e extensão da atual trégua comercial, sem criar expectativas de uma retomada ampla das relações.
Os dois países devem estudar a possibilidade de prorrogar a trégua comercial de um ano acordada em outubro, embora as tensões continuem elevadas devido às tarifas generalizadas impostas por Trump.
Vinicius Vieira, professor de relações internacionais da FAAP e da FGV, explica que a China respondeu às primeiras taxas americanas com dois instrumentos de pressão. Primeiramente, com a venda dos títulos do Tesouro americano no mercado financeiro internacional, o que fez com que os juros da dívida dos EUA subissem.
Em segundo lugar, com o gargalo das terras raras. A China detém entre 80% e 90% da capacidade mundial de processamento desses minerais, essenciais para semicondutores, armas e ligas metálicas, e passou a manipular sua distribuição como moeda de troca.
Do lado americano, há um incentivo eleitoral. Com aprovação em queda, Trump precisa de uma vitória que possa apresentar à sua base. Vieira observa que o presidente pode tentar tirar de Xi algum compromisso que faça com que a China volte a comprar mais produtos agrícolas americanos.
Se a China voltar a comprar soja, o agronegócio americano, de base republicana, recebe a mensagem de que Trump entregou resultados. O movimento, porém, teria consequências indiretas para o Brasil, que se tornou o maior fornecedor de soja para a China, ao absorver a fatia de mercado perdida pelos EUA.
A reunião de Trump com Lula, na semana passada, em Washington, é lida pelos especialistas dentro desse contexto. O Brasil detém a segunda maior reserva mundial de terras raras e tem sido cortejado pelos EUA como alternativa à dependência da China.
Há uma terceira frente que os analistas consideram igualmente importante e que pode, ao contrário das demais, abrir espaço para algum entendimento inédito: a corrida por IA.
Tom Harper, professor especializado em política externa chinesa da Universidade de East London, vê a IA como um dos temas centrais do encontro, especialmente após as recentes inovações chinesas que intensificaram a competição tecnológica entre os dois países. Sinalizando a importância que dá ao tema, Trump viaja acompanhado de uma comitiva de empresários, entre eles CEOs de big techs como Elon Musk, da Tesla e da SpaceX, e Tim Cook, da Apple.
Guimarães também aponta que o encontro seria um grande sucesso se resultar em algum tipo de princípio sobre os limites e a ética da IA. Para especialistas, o tema exige considerações urgentes, não apenas porque os dois países são os principais atores no setor, mas porque a competição entre eles precisa de salvaguardas, caso alguma linha vermelha seja cruzada.
Nenhum dos analistas ouvidos pela reportagem espera que a reunião resulte em grandes rupturas. “O símbolo desse encontro é a administração da rivalidade, não é o fim nem a aceleração, porque ela é estrutural e não tem como mudar”, diz Guimarães.
A avaliação é que Xi tenta administrar a imprevisibilidade política de Trump sem abrir mão de instrumentos estratégicos, como o controle sobre terras raras e a aposta em um plano de longo prazo para sustentar a influência global e reduzir dependências externas. Enquanto isso, Trump enfrenta uma pressão política interna ligada às eleições de meio de mandato, em novembro, num prazo muito mais curto. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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