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Política Especialistas criticam decisão do ministro Nunes Marques que suspendeu pesquisa Atlas e falam em censura

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Presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques suspendeu a pesquisa que apontou uma queda de seis pontos porcentuais na intenção de voto do senador Flávio Bolsonaro (PL). (Foto: Alejandro Zambrana/TSE)

O presidente do Conselho de Opinião Pública (COP) da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep), João Francisco Meira, classificou como um “ato de censura” a decisão do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, de suspender a pesquisa da AtlasIntel que apontou uma queda de seis pontos porcentuais na intenção de voto do senador Flávio Bolsonaro (PL). Com 40 anos de experiência no setor, ele diz que medida é “inconstitucional” e se apoia em argumentos frágeis.

“Trata-se de um ato de censura à pesquisa baseado em um argumento fraco”, disse, em entrevista ao Estadão. “Não há previsão constitucional para suspender a publicação de uma pesquisa. Isso é inconstitucional e fere a liberdade de divulgação de pesquisas. E além de lamentável do ponto de vista ético e normativo, a decisão é inútil do ponto de vista prático, já que a pesquisa já é de domínio público”, acrescentou ele, que é cofundador da Vox Populi.

O levantamento foi divulgado em 19 de maio, dias após a revelação de um áudio em que Flávio pede recursos ao banqueiro do Master, Daniel Vorcaro, para financiar o filme “Dark Horse”.

A decisão de Nunes Marques atendeu a um pedido do Partido Liberal (PL), segundo o qual a Atlas teria induzido os entrevistados de forma negativa em relação ao senador ao incluir questionamentos sobre o escândalo do Banco Master e sobre as conversas, reveladas pelo site Intercept Brasil, nas quais Flávio pede dinheiro a Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre a trajetória de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Segundo o partido, isso teria influenciado o resultado do levantamento, que mostrou Flávio com 41,8% das intenções de voto contra 48,9% do presidente Lula (PT) em um eventual segundo turno.

Na avaliação de Meira, a crítica não se sustenta, pois o questionário aplicado pela Atlas, disponível no site do TSE, mostra que as perguntas sobre intenção de voto aparecem logo no início do levantamento. Os cenários de primeiro turno começam na terceira questão, e os de segundo turno, na oitava. Apenas a partir da questão 11 surgem perguntas relacionadas ao Banco Master.

Já o áudio da conversa entre Flávio e Vorcaro é exibido ao final da pesquisa, quando o entrevistado já respondeu a todo o questionário e é convidado a avaliar o conteúdo da conversa entre o senador e o banqueiro.

“Como o áudio, apresentado apenas no final do questionário, poderia de alguma forma afetar a intenção de voto, que foi medida muito antes?”, questiona Meira. Segundo ele, mesmo que o entrevistado pudesse voltar às perguntas anteriores e alterar suas respostas após ter acesso ao conteúdo, isso não representaria um problema, já que mudanças de opinião ao longo de uma entrevista são legítimas.

“Você sempre pode mudar uma resposta, mesmo em uma entrevista presencial. E qual é o problema de mudar de ideia ao longo de uma entrevista? Isso é normal. A opinião das pessoas não é uma cláusula pétrea da Constituição. Cláusula pétrea é a liberdade de opinião.”

Para o presidente do Conselho de Opinião Pública da Abep, a suspensão da pesquisa é “inoportuna”, “fora de contexto” e representa uma maneira “muito ruim” de o ministro iniciar sua gestão à frente do TSE. “Espero, sinceramente, que os pares do presidente sejam capazes de mostrar a ele que essa decisão talvez não tenha sido a melhor.”

Oswaldo Amaral, professor do Departamento de Ciência Política da Unicamp e pesquisador do Centro de Estudos de Opinião Pública da universidade, também faz críticas à decisão de Kassio Nunes Marques.

“A decisão é tecnicamente muito frágil e se configura como um ato de censura. Isso pode ser muito perigoso, especialmente na reta final das eleições, pode se tornar um expediente utilizado para cercear a liberdade de expressão e a divulgação de informações que são relevantes para o eleitor tomar a sua decisão.”

Assim como Meira, Raphael Nishimura, estatístico na Universidade de Michigan, ressalta que o áudio de Flávio pedindo dinheiro a Vorcaro só foi exibido ao final da pesquisa e, por isso, não faz sentido atribuir a ele qualquer influência sobre a intenção de voto.

“O argumento de que a exibição do áudio poderia ter influenciado a forma como o entrevistado respondeu à pergunta de intenção de voto não faz sentido, porque se tratam, na prática, de dois questionários separados: um com as perguntas eleitorais e outro, aplicado posteriormente, dedicado especificamente ao áudio.”

O especialista sustenta que a decisão do presidente do TSE carece de fundamentação técnica e cria um “precedente perigoso” ao entender que perguntas sobre eventos políticos possam contaminar um levantamento eleitoral. Segundo Nishimura, não se trata de uma particularidade do caso Master ou de Flávio Bolsonaro: é comum que institutos incluam perguntas sobre acontecimentos recentes para avaliar como essas informações podem afetar a opinião dos eleitores e a disputa eleitoral.

Nishimura também chama de “preocupante” o trecho da decisão do ministro que diz que as perguntas do instituto “aparentam extrapolar a simples aferição neutra da opinião pública”. “É praticamente impossível escrever uma questão que será considerada completamente neutra para todo mundo”, argumenta o especialista.

Apesar de não enxergar motivos para a suspensão da pesquisa, o estatístico pondera que o instituto poderia ter concentrado todas as perguntas relacionadas ao Banco Master no final do questionário, assim como fez com a exibição do áudio. Isso porque questões sobre o conhecimento do caso antecederam perguntas sobre a avaliação da imagem de diferentes políticos e a rejeição dos candidatos e, em tese, poderiam influenciar essas respostas, na avaliação do especialista. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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