Terça-feira, 16 de junho de 2026
Por Renato Zimmermann | 16 de junho de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
A sustentabilidade já não é apenas uma pauta corporativa ou uma estratégia de marketing. Ela se tornou uma exigência global, um critério de sobrevivência para empresas e um fator decisivo para a credibilidade de países inteiros. Mas há uma questão que precisa ser enfrentada: a sociedade brasileira está realmente preparada para assumir seu papel como consumidora consciente?
Produtos e serviços sustentáveis ainda enfrentam barreiras significativas. O preço é uma delas. Muitas vezes, itens certificados por normas como ISO e NBR custam mais caro, resultado de processos produtivos que exigem investimentos em tecnologia limpa, auditorias independentes e adequação a padrões rigorosos. Para parte da população, esse custo adicional é visto como impeditivo, reforçando a ideia de que sustentabilidade é um luxo. Mas essa percepção precisa ser transformada. O preço de um produto não reflete apenas o custo imediato, mas também o impacto que ele gera ou deixa de gerar sobre os recursos do planeta.
Outro desafio é a comunicação. O marketing das empresas nem sempre é transparente. Há casos de greenwashing, em que marcas se apresentam como sustentáveis sem cumprir de fato os requisitos. Isso mina a confiança do consumidor e cria a sensação de que não vale a pena pagar mais caro por algo que pode ser apenas uma fachada verde. É nesse ponto que certificações sérias, como a ISO 14001 ou a NBR 16001, tornam-se fundamentais. Elas funcionam como um selo de credibilidade, garantindo que práticas sustentáveis foram realmente adotadas e auditadas.
A sociedade brasileira precisa assumir seu papel. Cada escolha feita no supermercado, na loja ou no serviço contratado é um voto silencioso sobre o futuro que queremos. Se continuarmos priorizando apenas o preço mais baixo, estaremos reforçando modelos de produção que degradam o meio ambiente e exploram recursos de forma irresponsável. Mas se optarmos por produtos e serviços de empresas que cumprem a missão de não gerar impacto negativo nos recursos do planeta, estaremos fortalecendo um mercado mais justo e sustentável.
O Brasil já deu passos importantes com a Lei nº 15.042/2024, que criou o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE). Essa legislação estabelece regras para o mercado de carbono, incentivando empresas a reduzir suas emissões e negociar créditos. Mas para que o SBCE funcione de forma robusta, é preciso que consumidores também façam sua parte, escolhendo empresas que comprovem suas práticas por meio de certificações e relatórios transparentes. Caso contrário, corremos o risco de ver o mercado de carbono esvaziado por falta de pressão social.
É verdade que retrocessos institucionais, como a recente decisão da CVM de revogar a obrigatoriedade dos relatórios de sustentabilidade, enviam sinais preocupantes. Ao flexibilizar a transparência, a autarquia fragilizou a confiança do mercado e deu margem para que empresas tratem a sustentabilidade como opcional. Esse tipo de movimento retrógrado é um alerta vermelho. Mas justamente por isso, o papel da sociedade se torna ainda mais crucial. Se consumidores exigirem clareza e responsabilidade, mesmo diante da ausência de obrigatoriedade, empresas terão que se adaptar para não perder mercado.
O caminho para uma sociedade sustentável não depende apenas de leis e resoluções. Depende também da força da escolha consciente. É preciso educar consumidores, criar incentivos fiscais para reduzir preços de produtos sustentáveis, exigir transparência obrigatória e mobilizar movimentos sociais que pressionem empresas e governos. Só assim conseguiremos transformar o consumo em uma ferramenta de mudança.
O futuro sustentável do Brasil não será construído apenas por legislações ou certificações. Ele será construído pela soma de milhões de decisões individuais, feitas todos os dias, em cada compra. Não podemos aceitar sinais de alerta como retrocessos regulatórios. Precisamos assumir nosso papel e usar o poder do consumo consciente para garantir que a marcha verde brasileira avance sem murchar.
* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética – Contato: rena.zimm@gmail.com
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
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