Domingo, 05 de julho de 2026
Por Renato Zimmermann | 5 de julho de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Estar em Brasília e compartilhar um almoço com o deputado Lafayette de Andrada foi mais do que uma experiência política: foi uma aula de ancestralidade. Ouvir de um descendente direto de José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência, a trajetória de sua família no parlamento brasileiro é como abrir um livro vivo, escrito não apenas com palavras, mas com sangue e memória. A família Andrada, desde os primórdios do Brasil, carrega o peso e a responsabilidade de participar das decisões que moldaram e moldam o país.
Lafayette, mineiro de origem e herdeiro de uma linhagem parlamentar que atravessa gerações — do avô ao pai, e agora nele — atua com firmeza na defesa da energia elétrica livre e democratizada. É impossível não perceber nesse compromisso o reflexo do espírito libertário de seus ancestrais. Se José Bonifácio lutava pela emancipação dos escravizados e pela construção de uma nação independente, Lafayette hoje se coloca na linha de frente pela emancipação energética, pela liberdade de acesso a um bem essencial. É como se a chama da liberdade tivesse se transformado em eletricidade, iluminando o caminho das gerações.
Durante aquele almoço, percebi que me alimentava não apenas de comida, mas de conhecimento. Era como beber direto da fonte da história, ouvir de quem carrega no próprio sangue a experiência de séculos. E nesse mergulho, ficou claro como a comunicação ao longo da história foi tantas vezes deturpada, como documentos falsos e narrativas manipuladas tentaram reescrever o passado. O exemplo da suposta carta de Lynch, que nunca existiu, mas circula como se fosse real, mostra como a manipulação pode atravessar séculos. É por isso que precisamos sempre voltar às fontes, às figuras que realmente viveram e decidiram, como José Bonifácio.
Bonifácio foi tutor de Dom Pedro II, educou Dom Pedro I e trouxe ao Brasil, junto da corte portuguesa, uma visão de futuro que se chocava com a realidade escravocrata da época. Seu espírito libertário não era apenas político, mas humano. Ele compreendia que a escravidão não era apenas uma injustiça moral, mas uma ferida que se perpetuaria por gerações. E de fato, as decisões tomadas lá atrás moldaram o destino dos descendentes dos escravizados, que até hoje carregam os efeitos da exclusão, da marginalização e da desigualdade.
A escravidão não terminou com a Lei Áurea. Terminou no papel, mas deixou marcas profundas na sociedade brasileira. A ausência de políticas de integração, de reparação e de reconhecimento condenou milhões de libertos à pobreza e à invisibilidade. Essa herança pesa até hoje, justificando a necessidade de correções históricas e sociais. Não se trata de olhar para trás com rancor, mas de compreender que as responsabilidades são intergeracionais. O que foi negado aos ancestrais precisa ser reconhecido e corrigido para seus descendentes.
Ao ouvir Lafayette, percebi que a ancestralidade não é apenas uma linha genealógica, mas uma linha de responsabilidade. José Bonifácio abriu caminhos, enfrentou escravocratas e plantou sementes de liberdade. A Princesa Isabel, influenciada por esse espírito, assinou a Lei Áurea mesmo contra a elite que a cercava. O Barão de Cotegipe, símbolo da resistência escravocrata, justificava a escravidão como necessária à economia e à ordem social, mas sua visão ficou registrada como a de quem tentou frear o inevitável. Hoje, nomes como o dele ainda estão em ruas e cidades, lembrando-nos de que a história não é feita apenas de heróis, mas também de opositores.
O almoço em Brasília foi, portanto, mais do que um encontro político. Foi um encontro com a história viva, com a certeza de que o sangue da liberdade corre nas veias da família Andrada e que esse espírito libertário precisa continuar iluminando o Brasil. Porque se decisões tomadas há séculos moldaram injustiças que ainda persistem, cabe às gerações atuais — e às futuras — a responsabilidade de corrigir, reparar e construir um país verdadeiramente livre.
Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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