Quinta-feira, 16 de julho de 2026
Por Redação O Sul | 15 de julho de 2026
A dor na colocação do DIU (dispositivo intrauterino) não é um evento raro, mas uma experiência comum entre as mulheres, e as diretrizes brasileiras subestimam esse desconforto, aponta estudo publicado no periódico International Journal of Gynecology & Obstetrics.
Em um centro de referência de Campinas (SP), 81% das inserções analisadas ocorreram sob dor moderada a severa. Entre as 7.259 inserções avaliadas, 54% envolveram dor severa e 28%, dor moderada. O escore mediano, em escala de zero a dez, foi de sete. Apenas 6% dos procedimentos tiveram algum alívio medicamentoso prévio, geralmente antiespasmódicos e anti-inflamatórios orais.
O percentual é 16 vezes maior do que a estimativa do Manual Técnico do Ministério da Saúde, que orienta a prática clínica no país desde 2018 e afirma que menos de 5% das mulheres sentem dor moderada ou aguda ao colocar o método.
A pesquisa é uma análise transversal de prontuários de 6.974 mulheres entre 18 e 45 anos que colocaram o DIU no Ambulatório de Planejamento Familiar da Unicamp entre 2022 e 2024. Foram avaliadas 7.259 inserções —uma mesma paciente pode ter passado pelo procedimento mais de uma vez no período.
A dor foi medida logo após a inserção por escala visual analógica de zero a dez, em que zero é nenhuma dor e dez, a pior dor imaginável.
“A dor não é um evento raro, mas sim uma experiência comum”, concluiu Ana Luiza Savi, uma das autoras do estudo e mestre pela London School of Hygiene and Tropical Medicine (Reino Unido).
Procurado, o Ministério da Saúde afirmou que está em procedimentos internos para revisão e atualização técnico-científica do manual para incorporar as evidências e atualizar as orientações aos profissionais do SUS (Sistema Único de Saúde).
A colocação do DIU é considerada um procedimento invasivo por penetrar uma cavidade do organismo. Ela pode ser feita em consultório, com ou sem anestesia local, ou com sedação no hospital.
Estudos brasileiros anteriores encontraram taxas de dor moderada a severa entre 44% e 70%. Segundo Savi, parte da diferença em Campinas pode estar ligada ao maior uso do DIU hormonal (Mirena) no centro, cujo insersor tem tubo de 4,8 milímetros, mais largo que o modelo da rede privada, de 4,4 milímetros.
O estudo também identificou associação entre uso prévio de antiespasmódicos e maior chance de dor moderada a severa. Segundo os autores, o desenho transversal não permite afirmar causalidade —pode refletir o uso do fármaco em casos já mais complexos.
Segundo a pesquisadora, o objetivo do estudo não é desestimular o uso do DIU, método seguro e eficaz. A intenção, diz, é promover mudanças que melhorem a experiência das usuárias e ajudem a superar essa barreira. “Seria importante atualizar a diretriz brasileira para refletir níveis realistas de dor”, diz Savi. Com informações da Folha de S. Paulo.
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