Domingo, 06 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 2 de setembro de 2026
O nome do ácido L-B-aminoisobutírico (L-BAIBA) chega a assustar, mas sua ação encanta. Ele é o mais novo integrante da lista de potenciais e inéditos medicamentos para desenvolver músculos, sem os efeitos colaterais de esteroides anabolizantes. Essas drogas têm potencial para promover uma revolução farmacêutica similar à das canetas emagrecedoras.
Esses medicamentos acenam com a promessa de amenizar os efeitos do envelhecimento, o principal fator de perda de massa muscular, e melhorar a qualidade de vida de uma população que vive cada vez mais. Conservar os músculos não apenas evita a fragilidade física, mas melhora a saúde metabólica e reduz a idade biológica.
Além disso, essas novas canetas para músculos ajudarão gente que emagreceu e “derreteu” com as canetas emagrecedoras. E também pessoas que sofrem de sarcopenia (perda de massa e força muscular) por obesidade, sedentarismo, diabetes e câncer, por exemplo.
Felipe Henning Gaia, chefe do Serviço de Endocrinologia Oncológica do Centro de Câncer A.C. Camargo e presidente da Regional São Paulo da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, afirma que a chegada desses medicamentos será bem-vinda.
“Temos uma sociedade que envelhece e precisa ser manter saudável, ativa e independente. Preservar os músculos é essencial. O corpo humano não acompanha o progresso científico que nos fez viver mais. Atividade física seguirá fundamental, mas drogas podem ajudar a evitar a perda de músculos, essenciais para a longevidade saudável”, destaca Gaia.
Em um século, um piscar de olhos em escala evolutiva, o ser humano mais que dobrou a expectativa de vida. Em 1925, ela era de apenas 36 anos. Mas graças à melhoria do saneamento, da alimentação e de medicamentos chegou a 82 anos (dado do Brasil) em 2025.
Porém, viver mais tem um custo elevado e boa parte dessa conta é paga em músculos.
“As mulheres sofrem perdas hormonais ligadas à menopausa que reduzem ainda mais a massa muscular. Por isso, drogas assim são importantes”, afirma Gaia.
Essas drogas serão úteis para minimizar as perdas associadas à idade, ao emagrecimento acentuado, mas não farão milagres, afirma Clayton Macedo, coordenador do Ambulatório de Endocrinologia do Exercício da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da diretoria da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).
“Elas trazem a possibilidade evitar perdas grandes. Mas não são para ganho extra de massa muscular. Não serão uma bala de prata”, salienta Macedo.
Especialista em fisiologia muscular, Tiago Fernandes, do Laboratório de Bioquímica e Biologia Molecular do Exercício da Universidade de São Paulo (USP), diz que essas drogas poderão ser revolucionárias, se usadas adequadamente.
– Quantos medicamentos há em desenvolvimento? Com base nas principais bases de dados de ensaios clínicos, como ClinicalTrials.gov e PubMed, há no mundo centenas de testes (esse número varia) de pelo menos 40 substâncias candidatas a drogas em diferentes graus pesquisa.
– Essas drogas funcionam como a testosterona e outros anabolizantes? Não. Nenhuma delas é um hormônio esteroide anabolizante, como as formas sintéticas de testosterona usadas como “bomba” para crescer músculos ao custo de pesados efeitos colaterais, sobretudo, para coração e fígado.
– E como atuam? Há várias estratégias. Entre as mais avançadas estão as que atuam bloqueando a miostatina e a activina. A miostatina é uma proteína natural que age como um “freio”, impedindo o crescimento exagerado dos músculos. Quando desregulada, por alterações metabólicas, falta de atividade física e envelhecimento, seu excesso leva à sarcopenia. Candidatas a drogas bloqueiam esse freio ou “enganam” seu receptor nas células pondo em seu lugar uma substância inócua.
Já a activina é uma “prima” da miostatina. Também restringe o crescimento muscular e, quando bloqueada, permite regeneração significativa da massa muscular, o que a torna outro alvo terapêutico em desenvolvimento.
– E o que são essas drogas? Essas drogas são, em sua maioria, anticorpos monoclonais, isto é, com alvos específicos. Os mais avançados em testes com voluntários são Apitegromab (Scholar Rock), Bimagrumab (Eli Lilly) e Trevogrumab (Regeneron).
Clayton Macedo observa que, usadas sozinhas, essas drogas não têm demonstrado um efeito significativo para aumentar massa magra. Porém, quando combinadas com as canetas emagrecedoras (agonistas de GLP-1, GIP e glucagon), conseguem minimizar a perda de músculos. Mas ele adverte que são necessários mais estudos para ter certeza.
– Esses medicamentos serão canetas? Provavelmente, sim. Em testes têm sido administrados por injeções. Mas o formato final para chegar ao mercado deve ser por canetas aplicadoras. A forma oral não é adequada porque esses anticorpos monoclonais são proteínas grandes. Se fossem engolidos, o estômago os destruiria como se fossem uma comida.
– Quando essas drogas devem chegar? Segundo Felipe Gaia, as drogas mais avançadas, se liberadas nos EUA, podem chegar ao Brasil em 2028 ou 2029. As mais adiantadas, em fase 3 de testes com seres humanos, são Apitegromab e Bimagrumab.
A FDA americana deve informar até 30 de setembro se dá o sinal verde para o Apitegrumab. Em caso positivo, poderá ser comercializado nos EUA no fim deste ano ou no início de 2027. A autorização é para tratamento de atrofia muscular espinhal. Porém, o uso “offlabel” é previsível. O laboratório Scholar Rock busca parcerias para realizar teste de fase 3 para preservação e recuperação de massa muscular associada à perda de peso se usado em combinação com a tirzepatida (Mounjaro). Já Bimagrumab passou em fase 2, caso passe no 3, poderia chegar ao mercado em 2029. As informações são do jornal O Globo.
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