Terça-feira, 27 de outubro de 2026
Por Amilcar Macedo | 27 de outubro de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Há um ensinamento da formação militar que merece circular muito além dos quartéis: o posto ou a graduação empresta autoridade, mas é o exercício comprometido com o bem comum que a justifica perante aqueles que a ela se submetem.
A lição cabe numa frase, aprendê-la, porém, pode exigir uma vida inteira, sobretudo quando as honras começam a parecer naturais, as portas se abrem sem esforço e quase ninguém se sente à vontade para dizer que estamos errados. Blaise Pascal tratou desse perigo nos Três discursos sobre a condição dos grandes.
Para instruir um jovem de elevada posição social, contou a história de um homem que, depois de um naufrágio, chegou a uma ilha onde os habitantes procuravam seu rei desaparecido e, como se parecia com ele, o estrangeiro foi recebido como soberano, aceitando as reverências, mas conservando consigo a lembrança de quem realmente era. Pascal chamou essa consciência de “duplo pensamento”.
O homem agia como rei diante do povo, enquanto reconhecia, intimamente, que não possuía qualquer superioridade natural sobre os demais. A história servia de advertência a quem, cercado de deferências, pudesse acabar acreditando que pertencia a uma espécie humana mais elevada.
O filósofo escrevia numa sociedade aristocrática, mas, ainda assim, sua advertência atravessa os séculos e chega, sem dificuldade, aos nossos gabinetes. Uma eleição, uma nomeação ou um concurso público habilitam alguém a exercer determinada função.
Nenhum desses caminhos, porém, concede infalibilidade, transforma opinião em verdade ou assegura virtude a quem recebeu poderes. Também por isso Pascal distinguia as grandezas instituídas das qualidades efetivas de uma pessoa. A posição social pode reclamar determinadas formas de respeito, mas a inteligência, a honestidade e o caráter precisam aparecer na conduta.
Quem ocupa uma cadeira importante talvez receba cumprimentos antes mesmo de falar. A estima, no entanto, dependerá do que fizer depois de se sentar. 1No teatro grego, as máscaras ajudavam o público a reconhecer os personagens. O rosto do ator ficava encoberto para que outro pudesse surgir em cena.
Há nessa imagem uma sugestão fecunda para a vida pública: alguém assume um papel cujas exigências não se confundem inteiramente com seus desejos. O ator pode representar um rei, porém convém que saiba, ao deixar o palco, que a coroa fazia parte do figurino.
Com a autoridade, a dificuldade é maior. O papel continua fora do gabinete, acompanha o nome, modifica o tratamento recebido e, aos poucos, pode desaparecer a distância entre o indivíduo e a função. Uma crítica à decisão passa a ser sentida como insulto e uma discordância parece deslealdade.
O respeito devido à instituição começa a ser cobrado como devoção pessoal. Esse desvio nem sempre se anuncia em grandes abusos. Às vezes, aparece na pequena vantagem solicitada como se fosse um direito, na impaciência com quem pede explicações, na escolha de colaboradores que jamais contradizem o chefe.
Quem só ouve concordância perde uma das poucas oportunidades de perceber o próprio excesso. Max Weber reconheceu na vaidade uma ameaça à responsabilidade política, pois a necessidade de aparecer, de ocupar o centro e de experimentar o próprio poder pode afastar alguém da causa que deveria servir.
Sua advertência ajuda a compreender um problema familiar: chega o momento em que uma iniciativa é avaliada pelo prestígio que trará ao seu autor, enquanto sua utilidade pública vai ficando em segundo plano. É preciso fazer uma ressalva. A autoridade regularmente constituída possui legitimidade jurídica. Ela não depende do aplauso cotidiano nem pode ficar sujeita ao gosto de cada um. Todavia, a confiança pública se constrói no exercício da função.
A lei confere competências; a conduta demonstra se elas estão sendo usadas com responsabilidade. Quem ingressa na vida pública leva consigo uma história, convicções, afetos e ambições e não seria razoável exigir que deixasse de ser pessoa. O dever está em reconhecer quando esses interesses interferem no compromisso assumido.
Há decisões que exigem contrariar um amigo, frustrar uma expectativa própria ou abrir mão de uma oportunidade de reconhecimento, e é nessas horas, longe dos discursos solenes, que a fidelidade à função pode ser medida. Isso vale para o governante, o parlamentar, o magistrado e o comandante.
Cada qual responde por atribuições diferentes, mas todos precisam distinguir o que desejam para si daquilo que podem fazer em nome dos outros. O bem comum perde conteúdo quando passa a significar, convenientemente, tudo o que favorece quem exerce o poder. Talvez o ensinamento militar encontre aí sua expressão mais profunda. A autoridade é confiada a alguém para o cumprimento de uma missão.
Suas prerrogativas têm finalidade, seus limites têm razão de existir e as honras recebidas não dispensam ninguém de prestar contas. Um dia, outra pessoa ocupará a cadeira. Os cumprimentos mudarão de destinatário, as portas se abrirão para outro nome e a rotina seguirá e restará o que foi feito com o poder recebido.
Saber disso enquanto ainda se está no cargo pode ser uma das melhores maneiras de exercê-lo.
*Amilcar Fagundes Freitas Macedo – gabinete-amilcar@tjmrs.jus.br
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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