Sexta-feira, 06 de novembro de 2026
Por Renato Zimmermann | 6 de novembro de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Caminhar pela Praça da Alfândega durante a Feira do Livro de Porto Alegre é, de certa forma, caminhar por diferentes tempos. Entre bancas, lançamentos, conversas e encontros inesperados, convivem autores de gerações distintas, ideias que atravessaram décadas e perguntas que continuam sem resposta. Neste ano, a Feira oferece uma coincidência especialmente simbólica: enquanto celebra sua 72ª edição, ajuda a marcar os cem anos de nascimento de um dos pensadores mais inquietos e importantes que o Rio Grande do Sul ofereceu ao mundo: José Lutzenberger.
Quando a primeira Feira do Livro foi realizada, em 1955, Lutzenberger tinha 28 anos. Ainda não era a referência internacional do ambientalismo em que se transformaria, mas já carregava a inquietação intelectual que o levaria a questionar certezas, enfrentar interesses econômicos e propor uma maneira diferente de compreender a relação entre humanidade e natureza.
Agrônomo de formação, trabalhou na indústria química antes de romper com aquela trajetória profissional e dedicar sua vida à defesa do meio ambiente. Em 1971, participou da fundação da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN), dando início a uma militância que ultrapassaria fronteiras. Não era um ambientalista acomodado. Tinha posições firmes, incomodava, provocava debates e não se deixava enquadrar facilmente em correntes políticas ou ideológicas. Sua preocupação estava acima dessas divisões: era com a continuidade da vida e com a responsabilidade humana diante dela.
Em 1976, publicou Fim do Futuro? – Manifesto Ecológico Brasileiro. O título, formulado há meio século, parece ter sido escrito para o nosso tempo. A obra acaba de ganhar uma edição comemorativa pela Editora da UFRGS, recolocando em circulação reflexões que não perderam sua atualidade. Talvez porque muitas das advertências de Lutzenberger tenham sido tratadas, durante décadas, como exageros de um ambientalista inconformado, quando na verdade antecipavam problemas que hoje se manifestam com intensidade crescente.
Sua defesa da Amazônia é um exemplo contundente. Desde os anos 1970, Lutzenberger denunciava os grandes projetos de ocupação e exploração que avançavam sobre a floresta, criticando estradas, empreendimentos agropecuários e atividades mineradoras que ameaçavam não apenas a biodiversidade, mas também os povos indígenas, seringueiros e comunidades ribeirinhas. Levou essa preocupação a conferências internacionais, artigos e debates públicos. Compreendia que a destruição da floresta não era um problema restrito ao território brasileiro: seus efeitos alcançavam os ciclos da água, o clima e o equilíbrio ambiental do planeta.
Essa visão permanece indispensável. A Amazônia não pode ser reduzida a uma reserva de madeira, minérios ou terras disponíveis para exploração. Sua importância está na complexidade de seus sistemas naturais e nas relações que estabelece com outras regiões. O mesmo princípio vale para o Cerrado, o Pantanal, a Mata Atlântica, a Caatinga e o nosso Pampa. Cada bioma abriga formas próprias de vida e desempenha funções ecológicas que não podem ser substituídas depois de destruídas. Preservá-los não é um gesto romântico, tampouco um obstáculo ao desenvolvimento. É reconhecer que a economia e a própria existência humana dependem de sistemas naturais que não controlamos plenamente.
Lutzenberger defendia uma compreensão integrada da vida. Influenciado pela visão de Gaia, ajudou a difundir a ideia de que a Terra funciona como um sistema complexo, no qual os seres vivos e os elementos naturais estão profundamente conectados. O ser humano não está fora da natureza, não é seu proprietário nem pode agir como se os recursos do planeta fossem infinitos. É parte de uma rede de interdependências da qual depende sua própria sobrevivência.
Talvez seja justamente essa a grande atualidade de seu pensamento. Em uma época marcada pela aceleração tecnológica, pela inteligência artificial, pela expansão do consumo e pela disputa por recursos naturais, continuamos confundindo capacidade de transformação com sabedoria. Produzimos mais, consumimos mais e desenvolvemos ferramentas cada vez mais poderosas, mas nem sempre conseguimos responder a uma pergunta elementar: para que e a serviço de que futuro estamos fazendo tudo isso?
A Feira do Livro também nos oferece a oportunidade de preservar a memória de quem ajudou a formular perguntas fundamentais. Além da nova edição de Fim do Futuro?, a programação deste ano inclui o lançamento de José Lutzenberger: o mensageiro de Gaia, da historiadora Elenita Malta Pereira, uma obra de fôlego que contribui para compreender a dimensão de sua trajetória. São livros que permitem que novas gerações conheçam não apenas o personagem histórico, mas também a inquietação, a coragem e a independência intelectual que marcaram sua atuação.
Lutzenberger morreu em 2002, mas suas perguntas continuam entre nós. E talvez a melhor homenagem que Porto Alegre possa prestar a esse gaúcho que pensou o planeta seja justamente não transformar seu centenário em uma simples celebração de passado.
Entre livros e árvores, a Feira nos lembra que ideias também precisam ser cultivadas. Algumas atravessam gerações porque continuam oferecendo respostas; outras, porque não nos deixam esquecer as perguntas que ainda precisamos enfrentar. No caso de Lutzenberger, fica uma delas, tão simples quanto desconfortável: que futuro estamos construindo e o que restará dele para aqueles que ainda virão?

* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética (Contato: rena.zimm@gmail.com)
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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