Segunda-feira, 28 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 21 de julho de 2016
No verão de 1981, quando tinha 13 anos, Carmen Aguirre foi estuprada por um homem em uma floresta perto de sua escola. Ela foi uma das centenas de vítimas do chamado “maníaco da sacola de papel” – o apelido se referia ao fato dele colocar uma sacola de papel na cabeça das vítimas para evitar ser identificado.
A experiência afetou profundamente as relações afetivas de Carmen, assim como sua carreira de atriz e escritora. Mas 33 anos depois, ela decidiu conhecer seu agressor, John Horace Oughton, na prisão.
Carmen disse que sabia da existência do estuprador antes de se tornar uma de suas vítimas – ele era constantemente tema de manchetes de jornais e aterrorizava a área metropolitana de Vancouver (Canadá) havia anos.
Em um domingo, ela e sua prima, que tinha 12 anos, foram passear pela vizinhança. “Terminamos o passeio no colégio, que era rodeado por uma floresta. Vimos que ia começar uma partida de futebol. Já tínhamos roubado um cigarro do meu tio, fomos à floresta para fumarmos escondido e, de lá, ver a partida. Entramos ali, como fazíamos desde pequenas. Não estávamos muito longe do campo de futebol: eram uns dez passos dentro da mata, de forma que podíamos ver até mesmo a torcida.”
Sob a mira de um revólver.
“Quando estávamos a ponto de sair dali, escutamos uma voz atrás de uma árvore. Ele nos mandou dar meia-volta, por as mãos em nossas cabeças e não olhar para trás porque estávamos sob a mira de um revólver. Ele nos obrigou, então, a entrar na floresta e deitar no chão, esfregando nossos rostos na terra. Durante as horas seguintes, nos torturou psicologicamente.”
Ele pediu que elas murmurassem em seu ouvido seus endereços, os nom
es de seus pais e seu telefone. Disse que, se elas contassem a alguém o que havia acontecido, mataria todos.
“Além disso, repetia para mim: ‘Você é uma prostituta, sei que você veio aqui para se encontrar comigo’… Depois de algumas horas, começou a me ameaçar dizendo que me mataria se não fizesse sexo com ele.”
“Por um momento, tentei convencê-lo e continuei dizendo: ‘Pode me matar’. Então, ele me disse que tinha um machado e uma única bala. Falou que ia cortar minha prima em pedaços e depois usaria a bala para me matar. Em seguida, afirmou à minha prima que isso era o que eu queria. E ela acreditou nele. Ele me deu dez segundos para pensar e contou em voz alta. Quando chegou ao final, minha prima me olhou e suplicou: ‘Por favor, faça isso por mim’. E eu fui estuprada.”
Ao fim do estupro, Carmen e sua prima decidiram denunciar o homem à polícia, apesar das ameaças. Esse processo, segundo ela, também foi traumatizante.
Cara a cara.
Em 1995, a mãe de Carmen mostrou a ela uma reportagem na qual a última e única vítima adulta de Oughton convocava outras mulheres que haviam sido estupradas por ele para assistir à audiência que poderia resultar na liberdade condicional do estuprador.
Carmen, assim como outras vítimas, depois de assistirem a 14 audiências, perguntaram se poderiam visitá-lo na prisão: “Não só nos encontramos, compartilhamos histórias, formamos uma comunidade”.
“Senti que era importante conversar com ele em uma situação na qual eu estivesse no controle, e olhá-lo nos olhos”, declarou.
“Cheguei à conclusão de que foi para me ensinar a ter compaixão. Isso é o que eu sinto por ele, por isso disse a ele que foi um prazer revê-lo. Agora, estou curada – mas isso não quer dizer que me recuperei totalmente do estupro que sofri. Cada vítima tem de fazer o que for preciso para superar o trauma. A mim e a Laura fez bem confrontá-lo, mas essa não é sempre a melhor solução. Nunca diria a uma vítima o que ela deve fazer ou não, mas recomendo fazer o que fiz”, afirmou.
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