Sexta-feira, 02 de outubro de 2026
Por Redação O Sul | 27 de agosto de 2018
Deixe o celular na bolsa por um tempo e olhe a sua volta. Certamente, vai perceber pelo menos uma pessoa (número bastante econômico) com a cabeça curvada, de olho no smartphone, esteja você no meio de transporte a caminho do trabalho, num restaurante, na praia, ou em qualquer outro lugar.
Se trabalha de frente para o computador, confira a sua própria postura e a dos colegas ao lado. Muito possivelmente, a sua cadeira — ou a deles — está baixa demais ou o monitor do computador, em posição errada. Esses hábitos automatizados estão deixando nossa coluna em frangalhos, e cada vez mais cedo os consultórios médicos estão cheios de pessoas jovens com incômodos e dores, principalmente na região do pescoço e dos ombros, onde fica a região cervical.
O ortopedista Orlando Righesso Neto, coordenador da Comissão de Campanhas da SBC (Sociedade Brasileira de Coluna), tem olhado com atenção para a tarefa de criar materiais de conscientização. A entidade está preocupada, sobretudo, com os jovens, cujo os hábitos de trabalho e comunicação estão sobrecarregando o corpo.
“Quando comecei a trabalhar, problemas na cervical apareciam em pacientes a partir de 40 anos. Hoje, já cheguei atender adolescentes de 15 com essas queixas, o que nos faz pensar: “será uma questão de postura?” Provavelmente, sim, aliada à falta ou ao excesso de exercícios”, diz Orlando.
Para se ter uma ideia, a cabeça, em posição “normal”, pesa em torno de cinco quilos. Quando flexionamos o pescoço para dar aquela espiada no Facebook ou no Instagram, o peso pode chegar a 25 quilos. Quem carrega esse fardo? Os discos (amortecedores fibrocartilaginosos que protegem as vértebras), que não ganham nada parecido com uma curtida. O que pode sobrar para eles é um senhor problema.
“No meio científico, já chamamos esse fenômeno de text neck, um termo em inglês que junta a expressão ‘mensagem de texto’ com a palavra ‘pescoço'”, diz Alexandre Fogaça Cristante, cirurgião de coluna e professor de medicina da USP. “Essa posição de pescoço dobrado coloca muito mais estresse sobre a coluna cervical, que suporta o peso da cabeça.”
Como os discos acabam recebendo uma carga maior do que o programado, o núcleo dessas estruturas formam certas “bolhas”, as chamadas hérnias de disco. Afinal, quando nossos antepassados ficaram em pé, e a coluna ganhou o formato atual e a função de sustentar o corpo, o homem olhava para baixo no máximo para ver por onde estava pisando, e não para espiar por onde os amigos andam circulando e postando no “Insta”.
A especialista em logística Tatiana Carvalho, de 31 anos, acreditava que hérnia era um problema apenas para pessoas da idade de seu pai, que teve a primeira nos discos da lombar com mais de 40 anos. Até o dia em que se espreguiçou e o pescoço soltou um crec que a fez correr para uma emergência ortopédica.
“Os médicos que consultei falaram muito sobre a importância de prestar atenção na postura quando estiver usando o celular ou o computador”, diz Tatiana. “Hoje, noto muita diferença. Se fico muito tempo mexendo no aparelho de forma errada, sinto mais dor. Quando pego o Kindle ou o iPad, a primeira coisa que faço é procurar uma posição que os deixe na altura dos olhos.
Se Tatiana está em pé e precisa checar o WhatsApp, ela levanta os braços o máximo possível para que o celular fique na altura dos olhos. Se vai ler um livro eletrônico em casa, fica sentada de forma ereta e coloca o gadget sobre umas “seis almofadas”, tudo isso para que o dia em que ficou sem conseguir mexer os braços não se repita.
“A dor na região cervical também pode irradiar para a cabeça e os ombros. Isso sem contar com outros problemas ortopédicos, como tendinites por causa do excesso de tempo que passamos ‘teclando'”, diz Alexandre Cristante.
A melhor maneira é diminuir o número de horas em que ficamos nessas posições inadequadas.Orlando Righesso chama a atenção para a necessidade de ouvir o próprio corpo e de escutar a opinião de um especialista.
Mesmo quem não é muito afeito a perder horas preciosas do dia no celular pode ser vítima dos desgastes nos discos por causa do uso excessivo do computador. Em casa ou em ambientes corporativos, não importa: é preciso ficar de olho na posição do aparelho e na quantidade de tempo em que ficamos sentados de frente para eles, hipnotizados.
Quando a altura da mesa e da cadeira não são proporcionais ao nosso tamanho e a tela não está alinhada com os olhos, colocamos sobre a coluna (cervical ou lombar) aquele tal peso que é maior do que ela pode suportar sem sofrer — calada ou não. Também nessa questão, a prevenção pode ser um excelente remédio.
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