Domingo, 14 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 6 de novembro de 2018
Após a derrota do PT na eleição presidencial para Jair Bolsonaro, o petista histórico e ex-ministro Gilberto Carvalho reconhece que o partido precisa “corrigir problemas” que “magoaram, ofenderam e decepcionaram a sociedade”.
Em entrevista à BBC News Brasil na sede nacional do PT, entrecortada pelos trovões típicos das chuvas de fim de ano em Brasília, ele afirma que o sentimento antipetista que contribuiu para a derrota de Fernando Haddad foi inflado nesta eleição por mentiras como a de que seu governo iria “venezuelizar o País” ou distribuir um “kit gay contra a família”.
Mas admite que as urnas trazem também um recado para o partido “visitar os demônios” da corrupção.
“A nossa convivência com a política tradicional, o financiamento empresarial de campanha, junto com isso veio corrupção, na forma de arrecadar dinheiro para campanha, até em alguns casos o enriquecimento de algumas pessoas, embora muito poucas, mas teve. Isso, sim, a gente tem que encarar, que eu chamo de a gente visitar os nossos demônios”, diz.
Questionado sobre qual recado o partido tira das urnas, Gilberto Carvalho afirmou: “Tenho a impressão de que uma resposta mais definitiva dessa eleição, nós vamos levar um tempinho para digerir por conta da mudança profunda da natureza que se deu o processo eleitoral e, sobretudo, o processo de comunicação com o eleitor. Hoje, temos consciência de que grande parte da mobilização dos corações e mentes se deu através do manuseio das redes sociais particularmente, Facebook e WhatsApp, no submundo. É o envio de mensagem de um jeito muito qualificado com conteúdo psicossocial de captação do ânimo das pessoas, do interesse das pessoas, que dá um salto de qualidade em relação a tudo anteriormente.”
“Para nosso aprendizado e da democracia, a gente precisa aprofundar um pouco mais qual é a natureza desse processo que levou as pessoas a mandar esse recado. Porque, aparentemente, é um recado de aprovação de uma candidatura que se afirma forte, que afirma que vai resolver todos os problemas, que autoriza a violência, a discriminação racial, de orientação sexual etc. e tal. Quer dizer, é uma viragem muito brusca naquilo que tem sido o recado político e as mensagens que a gente recebe.”
“A ironia é que é uma (mensagem) antipolítica contra um tipo de política, porque os que estão com Bolsonaro não são novos na política, nenhum deles, tirando o Paulo Guedes, que vai ser ministro da Economia. Bolsonaro tem 26 anos de mandato (de deputado federal), Magno Malta não sei quanto, (Onyx) Lorenzoni não sei quanto (ambos iniciaram a carreira política nos anos 90). E da pior política (…), porque são todos eles praticantes do velho fisiologismo, da manipulação religiosa terrível no caso do Magno Malta. A nós, cabe de todo modo entender alguns recados. O primeiro deles é que de fato precisamos fortemente retomar contato com a nossa base, a periferia, com aqueles que foram beneficiários da nossa política social, acho que não foram conscientizados da natureza desses benefícios sociais, do que era nosso projeto.”
“Nós [o PT] temos que olhar e procurar corrigir aquilo que de fato são problemas nossos. E que nós sabemos que magoaram, ofenderam, decepcionaram a sociedade. A nossa convivência com a política tradicional, o financiamento empresarial de campanha, junto com isso veio corrupção, na forma de arrecadar dinheiro para campanha, até em alguns casos o enriquecimento de algumas pessoas, embora muito poucas, mas teve. Isso sim a gente tem que encarar, que eu chamo de a gente visitar os nossos demônios. Nós temos que ter coragem de visitar, e, menos do que ficar fazendo uma autocrítica em praça pública, é fazer autocrítica na prática, mudar a nossa prática. Sair da burocracia e conviver mais com os pobres, fazer um trabalho de base novo de formação. Tudo isso OK, nós vamos fazer. Não querer agradar uma parte da sociedade que nós nunca vamos agradar, então isso é bobagem.”
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