Domingo, 04 de outubro de 2026
Por Redação O Sul | 25 de janeiro de 2020
A turbulenta relação entre o presidente Jair Bolsonaro e seu ministro mais popular, Sérgio Moro, que comanda a pasta da Justiça e Segurança Pública, teve um novo momento de desgaste essa semana com a sinalização de que o ministério poderia se desmembrado.
Após a reação negativa em sua própria base eleitoral à ideia, que reduziria os poderes de Moro, o presidente recuou, mas sem rechaçar completamente a possibilidade de criar um ministério exclusivo para a Segurança Pública no futuro.
“A chance (de tirar a Segurança Pública do ministério de Moro) no momento é zero. Tá bom ou não? Tá bom, né? Não sei amanhã. Na política, tudo muda, mas não há essa intenção de dividir (o Ministério da Justiça). Não há essa intenção”, disse a jornalistas na sexta-feira (24), ao chegar a Nova Délhi, para um vista à Índia.
Para analistas políticos, o presidente se equilibra entre duas opções que podem lhe trazer ganhos e prejuízos: manter Moro como um ministro com muito poder e visibilidade, correndo o risco de ser desbancado por ele como candidato preferido dos apoiadores do governo na eleição presidencial de 2022; ou desidratar Moro e assumir o risco de uma demissão do ministro, atraindo contra seu governo a ira dos eleitores “lavajatistas”, fiéis seguidores do ex-juiz da Lava-Jato.
“O que estamos vendo é uma TPE, tensão pré-eleitoral”, brinca o cientista político Antonio Lavareda, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Moro constantemente nega ter pretensão de disputar a eleição presidencial e, em entrevista ao programa Roda Vida na segunda-feira, chegou a dizer que apoiar a reeleição de Bolsonaro é o “caminho natural” para os ministros do governo. Hoje, porém, é grande a desconfiança no mundo político de que a hipótese esteja descartada.
“Quando Moro aceitou abandonar a magistratura para entrar no Ministério da Justiça, ele obviamente abraçou a política. Com a popularidade que ele tem, é praticamente impossível para um ser humano não ser mordido pela ambição da mosca presidencial”, afirma Lavareda.
Segundo o professor da UFPE, a eleição de 2018 foi, no linguajar da ciência política, uma “eleição crítica”, ou seja, um pleito que desarrumou todo o quadro partidário, gerando grande expectativa em relação à eleição seguinte.
Ele nota que a desarticulação atingiu em especial a centro-direita brasileira, enquanto o PT conseguiu “a duras penas” se manter como principal força da esquerda. Por isso, diz, é no campo eleitoral do presidente em que se abre com mais antecedência a disputa em torno das candidaturas eleitorais.
Nesse cenário disputado, em que também despontam como possíveis candidatos da direita ao Palácio do Planalto os governadores de São Paulo, João Doria (PSDB), e do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), o vice-presidente, Hamilton Mourão (PRTB), e o presidente do Novo, João Amoedo, o professor da UFPE considera que Moro e Bolsonaro têm mais a perder do que a ganhar se decidirem se separar.
Para Lavareda, Moro teria que apresentar “justificadas razões” para deixar o governo após ter abandonado a posição de juiz da Lava-Jato para ser ministro. Isso, nota ele, necessariamente o colocaria na oposição ao governo, ainda que no campo da direita.
“Moro se beneficiaria na condição de opositor do governo Bolsonaro? Eu suspeito que não, pois no campo da oposição já há outros atores muito melhor instalados do que ele. E o Bolsonaro se beneficia provocando uma saída do Moro? Longe disso, porque o Moro é um ativo, é um asset da imagem do seu governo”, analisa.
“Como acredito na racionalidade de ambos, eu creio que vão continuar essa relação às vezes idílica, às vezes conflituosa. Para usar a metáfora que o presidente gosta, é um tipo de namoro de tapas e beijos”, acrescenta.
Engolindo sapos
O cientista político José Álvaro Moisés, professor da Universidade de São Paulo, diz ter dúvidas sobre se foi positivo para a imagem de Moro ingressar no governo Bolsonaro. Na sua avaliação, ao aceitar o ministério, “pareceu que muitas coisas que ele fez (quando era juiz da Lava Jato e condenou importantes políticos tradicionais, entre eles o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva) estavam ligadas à possibilidade de favorecer esse governo”.
No entanto, agora que já é ministro, Moisés acredita que Moro alimenta, sim, pretensões de concorrer à Presidência e não vai querer abrir mão de uma posição que lhe dá prestígio e visibilidade.
“Tendo aceitado o cargo de ministro da Justiça, enquanto não houver uma ruptura muito radical (como o desmembramento do ministério), ele vai tender a continuar engolindo sapos, porque o cargo é muito prestigioso. Não há a menor dúvida em relação a isso”, afirma.
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