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Brasil O número de mortes por coronavírus no Brasil pode ser ainda maior em função dos atrasos nas estatísticas da Saúde

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Tendência na média de diagnósticos é de alta de +26%, maior marca desde março. (Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

Com um atraso expressivo na notificação das mortes pela Covid-19 e entraves na transparência das bases de dados nacionais, o Brasil se encontra no escuro quanto à dimensão da pandemia do novo coronavírus no País, alertam especialistas. Na avaliação do professor do instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) Paulo Inácio Prado, que também é integrante do Observatório Covid-19 BR, os brasileiros vivem um “apagão” de estatísticas, e o número de mortes é maior do que indica o Ministério da Saúde.

O principal motivo é o atraso entre a ocorrência de um óbito por Covid-19 e a notificação da morte na base do Ministério da Saúde. Em alguns casos, esse intervalo é de dez dias ou mais. Prado afirma que a demora na testagem pode ser um dos fatores que contribuem para esse cenário, mas não o único, e que a pasta deixou de informar o detalhamento da data das mortes de cada paciente, o que permitiria o parâmetro.

“Já é de causar espanto que haja pessoas falecidas sem o resultado do teste. Isso não é normal. A maioria dessas pessoas que faleceram devem ter evoluído para o estado grave, a maioria delas devem ter sido hospitalizadas, e é no momento da hospitalização que se registra como caso grave suspeito e o teste é encaminhado”, explica Prado. O Ministério da Saúde não explica a razão dessa discrepância de datas. O fato desse atraso existir já sugere que tem um problema na notificação.

Por isso, os dados anunciados diariamente pela pasta representam, na prática, uma fotografia do Brasil há pelo menos sete dias. Procurado pelo jornal O Globo, o ministério reconheceu a possibilidade de existir “uma lacuna entre a data do óbito e o resultado do teste”, mas ponderou que “todo resultado positivo será computado” e que “essa lacuna não altera as ações necessárias para as ações do poder público contra a Covid-19″.

A pasta afirmou, ainda, que a subnotificação de mortes é improvável, já que “todas as mortes por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) são de notificação obrigatória e serão investigadas para Covid-19″. O site UOL compilou números dos boletins do governo federal e repassou ao Observatório Covid-19 BR, que estimou um cenário no qual, em uma perspectiva conservadora, os óbitos pela doença são pelo menos 122% maiores do que o reportado oficialmente até o último dia 15, quando havia 1.736 mortes confirmadas.

Apagão de dados

O pesquisador Paulo Inácio Prado, no entanto, sustenta que os cientistas brasileiros, que na sua avaliação se organizaram rapidamente para responder à pandemia, constataram um verdadeiro apagão de informações sobre a Covid-19. O próprio Ministério da Saúde limitou o acesso à base de dados de notificações, de acordo com o professor da USP, o que antes era possível através da solicitação justificada de acadêmicos.

“Hoje conseguimos esses dados em São Paulo através da secretaria municipal de Saúde, por exemplo. Essa base é de interesse público, há uma massa crítica imensa de pesquisadores capazes de prover informações sobre a pandemia”, diz o pesquisador. “É possível garantir isso, o ministério já tinha um termo de cessão de dados muito preciso, com o cadastro do pesquisador e da instituição com justificativa e a concessão de uma chave de acesso. É preciso estabelecer uma política pública de disponibilização desses dados”, confirma.

Com isso, seria possível produzir estatísticas sobre a epidemia diariamente, afirma. Mas o atraso nos registros permaneceria como um desafio, sem mencionar a subnotificação dos casos no Brasil.

“Nós temos o atraso, quando o número um dia chegará, e a subnotificação, que significa que as estatísticas não chegarão à base de dados. O Brasil optou oficialmente pela subnotificação no modelo que coloca como compulsória a notificação apenas de casos graves. O ministério agora começou a tentar notificar os casos leves, mas por um caminho que duvido muito que dará certo”, avalia Prado. “Isso nos deixa no escuro. Você não sabe mais a extensão de casos leves, que são aqueles que evoluem para os casos graves. Várias políticas públicas ficam sem norte”, conclui.

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