Terça-feira, 06 de outubro de 2026
Por Redação O Sul | 10 de maio de 2020
Com cerca de 4 milhões de casos confirmados de infecção pelo novo coronavírus no mundo e mais de 276 mil mortos, a corrida para o desenvolvimento de uma vacina tem se intensificado. Já são mais de cem candidatas sendo testadas em vários países, de acordo com o último balanço da Organização Mundial de Saúde (OMS), divulgado na terça. E oito delas entraram na etapa de ensaios clínicos – que envolvem humanos.
Tradicionalmente, vacinas levam em média dez anos para serem produzidas – a mais rápida foi a da caxumba, que demandou quatro anos (e isso foi nos anos 1960). Mas o desenvolvimento de novas tecnologias acelerou o processo, e a expectativa atual é que se tenha um produto no ano que vem. Na semana passada, o otimismo cresceu com o anúncio de resultados de uma vacina em desenvolvimento na Universidade de Oxford. Ela é uma das que está em teste clínico e se estimou que pode estar pronta até o fim deste ano.
Os cientistas do Instituto Jenner, em Oxford, estão alguns passos à frente na corrida por usarem como ponto de partida uma pesquisa anterior de vacina para outro coronavírus, o causador da Mers, doença respiratória da mesma família da covid-19 que atingiu especialmente o Oriente Médio a partir de 2012.
Logo que o Sars-CoV-2 surgiu na China, no fim do ano passado, os pesquisadores de Oxford aproveitaram a plataforma que eles tinham criado para a Mers para testá-la em macacos rhesus e os resultados foram muito promissores. Com uma dose da vacina, conseguiram imunizar 18 animais. O resultado foi publicado no dia 1.º na Science Advances.
Para fazer esta vacina, usou-se como vetor um adenovírus (que causa resfriado comum) inativo, no qual se introduziu uma proteína do Mers-CoV, capaz de fazer o corpo produzir anticorpos contra o vírus. Agora, cientistas usaram a mesma plataforma, mas com uma proteína do Sars-CoV-2. Como eles já haviam provado anteriormente que ela era segura para humanos (a primeira etapa dos ensaios clínicos – veja quadro ao lado), foi possível saltar para a segunda etapa, de eficácia. Eles juntaram as duas fases em uma só e, agora, preveem começar testes em 6 mil pessoas até o fim do mês.
É como se o vírus “imitasse” o outro para induzir o sistema imune a reagir ao vírus verdadeiro quando há contaminação.
Vacinas clássicas usam uma versão atenuada do vírus que se quer combater para desencadear a resposta imunológica. Mas, na corrida para combater a covid-19, novas tecnologias estão em teste na expectativa de serem mais seguras e eficazes contra a pandemia.
Uma das estratégias é usar o RNA mensageiro (RNAm) do vírus, a molécula que “lê” as informações genéticas e comanda a produção de proteínas. Aqui vale a mesma premissa anterior – de que possa induzir o sistema imunológico a agir quando o próprio vírus resolver atacar. Duas das oito vacinas em fase clínica – da Moderna e da Pfizer – usam esse modelo.
Algumas estratégias que já estão na etapa clínica, porém, ainda se baseiam em versões inativas do vírus (mais seguras que as atenuadas). É o caso da proposta da chinesa Sinovac, que também se mostrou efetiva em rhesus. Foram testadas duas doses. Animais vacinados com a mais alta, que tiveram o Sars-Cov-2 introduzido em seus pulmões, tiveram a melhor resposta e não desenvolveram a doença.
Um dos desafios do desenvolvimento de vacinas é que, quando um produto enfim chega aos ensaios clínicos, é preciso contar com o tempo. Em geral, para saber se a vacina é efetiva, é preciso esperar que os voluntários entrem em contato com o vírus naturalmente, o que leva tempo.
Com a emergência da covid-19, pesquisadores têm discutido se essa regra deveria mudar para permitir que os voluntários fossem deliberadamente expostos ao vírus após tomarem a vacina, o que aceleraria o processo, apesar de colocar as pessoas em risco. O chamado teste de desafio humano foi tema de um artigo na semana passada na Science, que traz sugestões para torná-lo eticamente aceitável.
Os comentários estão desativados.