Sexta-feira, 16 de maio de 2025
Por Redação O Sul | 11 de setembro de 2023
Aos 87 anos, Lucinha Araújo diz que tira a vitalidade que demonstra de duas fontes: do trabalho com a Sociedade Viva Cazuza – que atende portadores de HIV, doença para a qual perdeu o filho – e do envolvimento com o legado artístico de Cazuza. Para ela, a obra do filho é atemporal e, por essa razão, lembrada até hoje.
“Ele não era deste mundo porque não é possível ele ser tão atual até os dias de hoje. Eu fico impressionada com a redação das palavras dele. Eu que sou mãe, e que conheço 90% da obra dele, de vez em quando ainda descubro algumas frases que eu não tinha notado, a profundidade do que ele queria dizer”, diz ela ao jornal O Estado de S. Paulo.
No ano em que Cazuza completaria 65 de idade, a Som Livre lançou em agosto o projeto (Re)Descubra, Cazuza: O Poeta Vive, em que quatro artistas jovens lançaram regravações de canções do artista, e dois livros sobre a obra dele também estão programados para sair até o ano que vem. Leia abaixo a entrevista:
– Os jovens costumam conversar com a senhora sobre a obra do Cazuza? Existe essa interação? “Existe sim. É impressionante, cada vez mais eu chego à conclusão de que ele foi atemporal. Ele não era deste mundo porque não é possível ele ser tão atual até os dias de hoje. Fico impressionada com a redação das palavras dele. De vez em quando ainda descubro algumas frases que eu não tinha notado, a profundidade do que ele queria dizer. Outra coisa que eu sinto, é um corte na produção dele. A divisão de quando ele era do Barão Vermelho e, depois, no primeiro disco da carreira solo. Ele cantava as dores e os amores bem resolvidos ou mal resolvidos da vida dele e depois que ele se soube HIV positivo, passou a cantar sobre o país dele.”
– Essa divisão de interesses foi algo que a senhora também observou no pessoal, nas conversas que vocês tinham? “Com toda certeza. Depois que ele se descobriu soropositivo, passou a pensar em coisas que não pensava antes, mas ele nunca fez uma queixa, talvez porque eu e o pai dele sempre dissemos que ele não ia morrer dessa doença. O Cazuza ligava para o trabalho do pai, lá pra Som Livre, e dizia, ‘papai, vem aqui em casa dizer aquelas mentiras que você gosta de dizer’. Aí João largava tudo, vinha e dizia: ‘você não vai morrer porque eu não quero que você morra. Vou vender minha alma ao diabo, vou ficar pobre, gasto meu dinheiro todo, mas você não vai morrer’. Acho que João e eu contribuímos muito para ajudá-lo durante aquela trajetória tenebrosa que ele passou. Ele não foi só um grande escritor de canções e um grande poeta, ele também foi um homem muito corajoso e deu coragem para milhões de soropositivos mostrarem as suas caras. Até hoje ainda é uma doença maldita, mas naquela época era muito mais.”
– Mesmo com todos os avanços que tivemos, ainda há muito preconceito para ser vencido em relação à aids? “Com certeza. Vou te dar um exemplo que aconteceu há um tempo atrás. Fui chamada pra fazer um programa de televisão e eles me pediram para levar duas pessoas que fazem parte do programa de distribuição de cestas básicas da Sociedade Viva Cazuza. Dos 250 adultos que atendemos, nenhum deles quis dar entrevista. E eu entendi. A maioria disse que a família não sabia, que os vizinhos não sabiam. A aids foi esquecida porque saiu de moda falar sobre o assunto. É uma pena que as pessoas estejam voltando a se contaminar.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.