Terça-feira, 04 de Agosto de 2020

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Brasil A ameaça de Bolsonaro de trocar o diretor-geral da Polícia Federal desencadeou uma disputa interna por cargos-chave e o temor de paralisação dos setores do órgão

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Investigações referem-se a desvios em contratos na área da saúde envolvendo organizações sociais. (Foto: Divulgação/PF)

A ameaça do presidente Jair Bolsonaro (PSL) de trocar o diretor-geral da PF (Polícia Federal) desencadeou uma disputa interna por cargos-chave e o temor de paralisação de setores do órgão.

Para neutralizar a ação do presidente, a cúpula da PF e superintendentes de unidades regionais cobram uma decisão do ministro da Justiça, Sérgio Moro, que até agora não foi claro sobre o tema.

A mudança na cúpula da PF produziria um efeito dominó, com substituições nas chefias das superintendências regionais. Além do órgão central, a PF tem 27 superintendências, uma em cada estado e no Distrito Federal.

Segundo integrantes da alta hierarquia da PF, a indefinição sobre o futuro de Maurício Valeixo, atual diretor-geral, como é conhecido o diretor-geral, impacta a rotina das superintendências.

Investigadores avaliam que os trabalhos que estão em andamento continuam seguindo seu ritmo próprio, mas casos que estão para começar ficarão em compasso de espera.

No campo administrativo, novos projetos, como reformas, remoções e transferência de servidores já foram em certa medida afetados.

A crise na PF teve início em 15 de agosto, quando Bolsonaro atropelou a cúpula e disse que iria trocar o superintendente do Rio, Ricardo Saadi, por questões de “produtividade e gestão”. Ele ainda deu como certo o nome do sucessor —que não era a escolha do diretor-geral.

A declaração foi rebatida pela instituição, que negou a relação da troca com problemas de desempenho. Bolsonaro também passou a ser criticado por interferir em um tipo de cargo que, historicamente, não costuma ter ingerência presidencial.

Após semanas de desgaste, Bolsonaro chamou, em entrevista à Folha de S.Paulo no começo deste mês, de “babaquice” a reação da Polícia Federal, disse que o comando da instituição precisava dar uma “arejada” e que já havia conversado com Moro sobre isso.

Na origem da paralisia e da movimentação da bolsa de apostas na PF sobre o eventual sucessor de Valeixo e dos chefes das superintendências está, segundo relatos obtidos pela reportagem, a postura do ex-juiz, por não ter saído em defesa do diretor-geral.

O ministro tem evitado a imprensa, fazendo apenas breves pronunciamentos em eventos, mas se recusando a responder perguntas. Nos bastidores, tem dito que não comenta o assunto.

A Folha questionou o Ministério da Justiça sobre o futuro da PF novamente na sexta-feira (13), mas a resposta segue sendo que não se falará sobre isso.

A informação que circula internamente na PF é que o ministro da Justiça ainda se apoia em uma esperança de que a poeira baixe para que consiga manter Valeixo no cargo.

Mas no comando do órgão a saída dele já é dada como certa, e a cobrança agora é para que ao menos Moro tente participar do processo de definição do sucessor.

Embora o discurso seja de que o órgão tem de continuar funcionando independentemente de questões externas, a indefinição no topo da PF irradia-se para as outras instâncias.

Valeixo, escolhido por Moro para a diretoria-geral, acompanhou a Operação Lava-Jato desde os primeiros passos, participou diretamente da prisão dos ex-presidentes Lula (PT) e Michel Temer (MDB) e conta com respaldo interno da corporação.

Com a mudança no comando da PF, a diretoria inteira deve sair — por conta própria ou trocada pelo novo chefe.

Bolsonaro passou, no último domingo (8), pela quarta cirurgia por causa da tentativa de assassinato que sofreu em setembro de 2018, durante a campanha eleitoral.

O presidente está afastado das funções — o vice, Hamilton Mourão, fica no posto até terça (17). A data de retorno tem sido monitorada pela PF, como um prazo para decisão dos novos rumos.

Além da instabilidade, a indefinição também causa uma disputa interna para ocupar as vagas dos que podem estar de saída e uma série de teorias conspiratórias.

Na semana passada, por exemplo, uma das entidades de classe, a Federação Nacional de Policiais Federais enviou para parlamentares, entre eles o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), um comunicado dizendo “reiterar a confiança no presidente e autoridade deste para nomeação e escolha do diretor-geral”.

A nota foi vista como oportunista por setores da PF e mais um capítulo do embate entre agentes e delegados. Movimentações como essa têm ocorrido nos bastidores desde o início da crise.

Em entrevista à Folha, Bolsonaro não negou que Anderson Torres, atual secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, seja o seu preferido para substituir Valeixo.

Com isso, o nome do delegado é o mais forte no momento, mas não é a escolha de Moro.

A direção da PF vê a possibilidade de nomeação de Torres como um retrocesso para a corporação. Os dirigentes argumentam que o fato de ele estar fora do órgão há quase uma década e ter trabalhado como assessor de um político durante esse tempo são pontos ruins para a PF.

O agora secretário de Segurança foi assessor legislativo do ex-deputado federal Fernando Francischini (PSL-PR) por oito anos.

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