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Colunistas A crise do petróleo e os riscos para a economia brasileira

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(Foto: Reprodução)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Diante do preocupante quadro atual, que poderá se agravar com a continuidade das hostilidades no Estreito de Ormuz e com a mobilização dos caminhoneiros por melhores valores de frete, o governo precisa adotar medidas urgentes para impedir uma escalada da inflação e uma possível crise de desabastecimento. É necessário garantir o fornecimento de combustíveis, preservar o transporte de alimentos, medicamentos e demais produtos essenciais, estabelecer um canal permanente de negociação com os transportadores e criar mecanismos temporários para reduzir o impacto da alta internacional do petróleo sobre a economia brasileira.

A semana começa com manifestações de caminhoneiros em diferentes pontos do território nacional, em defesa da aprovação, pelo Congresso Nacional, de um projeto que estabeleça critérios adequados para o piso nacional dos fretes. Na manhã em que este texto era preparado, aproximadamente cem caminhoneiros bloqueavam o acesso ao Porto de Santos como forma de pressionar as autoridades.

Nos últimos dias, transportadores de combustíveis do Espírito Santo também estiveram mobilizados para uma paralisação marcada para esta segunda-feira. O movimento foi suspenso após um acordo entre trabalhadores e empresas transportadoras, que estabeleceu reajustes salariais e ampliação de benefícios. Apesar da negociação, permanece um ambiente de insegurança no setor de transportes.

A instabilidade interna ocorre paralelamente ao agravamento das tensões no Golfo Pérsico. O Estreito de Ormuz é uma das principais rotas mundiais de transporte de petróleo e derivados. Qualquer interrupção ou redução na circulação de navios pela região afeta imediatamente as cotações internacionais, os custos dos combustíveis e toda a cadeia logística mundial.

Com o aumento do preço do petróleo, os reflexos chegam rapidamente ao Brasil. Gasolina, óleo diesel, gás de cozinha e querosene de aviação tornam-se mais caros, elevando os custos do transporte rodoviário, aéreo e marítimo. Como quase todas as atividades econômicas dependem, direta ou indiretamente, da movimentação de mercadorias, a alta dos combustíveis acaba sendo transferida para os preços dos alimentos, medicamentos, produtos industrializados e serviços.

O primeiro dever do governo, portanto, é impedir que uma crise internacional do petróleo seja ampliada por uma paralisação nacional do transporte rodoviário. Para isso, é indispensável abrir imediatamente uma mesa de negociação com representantes dos caminhoneiros, das transportadoras, dos embarcadores e dos setores produtivos. A política de fretes precisa assegurar uma remuneração digna ao transportador sem provocar aumentos incompatíveis com a capacidade financeira dos produtores e consumidores.

Também é necessário avaliar medidas temporárias de estabilização dos preços dos combustíveis. A redução emergencial de tributos, a utilização responsável de fundos de estabilização, a ampliação dos estoques reguladores e o planejamento das importações podem diminuir a transmissão imediata da alta internacional para o mercado interno. Essas providências, contudo, devem ser transparentes, possuir prazo determinado e apresentar compensações fiscais, para que o combate à inflação não provoque desequilíbrio ainda maior nas contas públicas.

Outra medida fundamental é a formação de um plano nacional de abastecimento. O governo precisa identificar as regiões mais vulneráveis, acompanhar estoques de combustíveis e produtos essenciais e estabelecer rotas prioritárias para o transporte de alimentos, medicamentos, insumos hospitalares e matérias-primas. Em uma situação extrema, veículos responsáveis por essas cargas deverão receber tratamento preferencial nas estradas, nos portos e nos centros de distribuição.

Embora o Brasil seja um grande produtor de petróleo, ainda depende da importação de determinados tipos de óleo e de derivados. Isso ocorre porque parte das refinarias brasileiras foi projetada para processar características específicas de petróleo, nem sempre compatíveis com toda a produção nacional. Dessa forma, produzir grande quantidade de óleo bruto não significa possuir completa independência no fornecimento de gasolina, diesel, querosene e outros combustíveis.

Esse problema torna ainda mais necessária a adoção de uma política de segurança energética. O país deve ampliar sua capacidade de refino, modernizar as refinarias existentes, diversificar os fornecedores externos e manter estoques estratégicos suficientes para enfrentar interrupções temporárias do comércio internacional.

A crise também evidencia a excessiva dependência brasileira do transporte rodoviário. A estrutura logística nacional teve origem nas ferrovias, mas, a partir das décadas de 1950 e 1960, o país passou a privilegiar a construção de estradas e a expansão da indústria automobilística. Diversas linhas ferroviárias foram desativadas, abandonadas ou destinadas a operações limitadas, enquanto os caminhões assumiram a maior parte do transporte de cargas.

Atualmente, mercadorias percorrem milhares de quilômetros por rodovias entre as áreas produtoras, os centros consumidores, as indústrias e os portos. Esse modelo aumenta o consumo de combustível, desgasta as estradas, eleva os custos logísticos e torna toda a economia vulnerável às oscilações do diesel e às paralisações dos transportadores.

O caminhão é indispensável, especialmente nas etapas iniciais e finais da distribuição. Entretanto, não deveria ser utilizado como única ou principal solução para percursos de longa distância. Em países com sistemas logísticos mais equilibrados, as ferrovias e hidrovias realizam o transporte de grandes volumes, enquanto os caminhões atuam de maneira complementar, ligando as áreas de produção aos terminais e os terminais aos estabelecimentos comerciais e industriais.

Por isso, além das ações emergenciais, o governo precisa acelerar os investimentos em ferrovias, hidrovias, cabotagem e integração entre diferentes modalidades de transporte. A ampliação da malha ferroviária permitiria retirar parte dos caminhões das rodovias, reduzir o consumo de diesel e diminuir o custo por tonelada transportada.

Projetos de integração ferroviária com países da América do Sul também podem abrir novas rotas para os portos do Oceano Pacífico, reduzindo distâncias comerciais em direção à Ásia. No entanto, essas iniciativas precisam ser submetidas a estudos rigorosos de viabilidade econômica, impacto ambiental, soberania nacional e interesse estratégico brasileiro.

O mesmo planejamento deve alcançar a eletrificação da frota. A expansão dos veículos elétricos poderá reduzir gradualmente a dependência do petróleo, sobretudo no transporte urbano, na distribuição de mercadorias e nas frotas públicas. Para isso, será necessário ampliar a infraestrutura de recarga, estimular a produção nacional de componentes, qualificar trabalhadores e garantir que a energia utilizada seja proveniente de fontes seguras e sustentáveis.

Também devem ser incentivados os biocombustíveis, como etanol, biodiesel e biometano, áreas em que o Brasil possui experiência, capacidade produtiva e vantagens naturais. A diversificação energética não eliminará imediatamente a importância do petróleo, mas poderá reduzir os impactos de futuras crises internacionais.

O combate à inflação, portanto, não pode depender apenas do aumento dos juros. Embora a política monetária tenha importância no controle da demanda, a atual ameaça possui forte componente de custos e de oferta. Combustíveis mais caros, fretes elevados e dificuldades logísticas pressionam os preços mesmo sem aumento do consumo. Nesse cenário, elevar excessivamente os juros poderá conter a atividade econômica sem resolver a origem do problema.

O governo deverá atuar simultaneamente em várias frentes: negociar com os caminhoneiros, garantir o abastecimento, proteger o transporte de produtos essenciais, estabilizar temporariamente os combustíveis, fortalecer a capacidade de refino, ampliar os estoques estratégicos e acelerar a diversificação da matriz energética e logística.

A crise anunciada exige rapidez, planejamento e responsabilidade. Medidas improvisadas ou meramente políticas podem produzir alívio momentâneo, mas ampliar os prejuízos no futuro. O Brasil precisa enfrentar a emergência sem abandonar as mudanças estruturais. Somente assim será possível impedir que a guerra no exterior e os conflitos internos do transporte se transformem em inflação elevada, desabastecimento, desemprego e perda do poder de compra da população.

Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves – dirigente da ASPOMIL (Associação de Assist. Social dos Policiais Militares de São Paulo)

 

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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