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Colunistas A era das opiniões e da escassez de repertório

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(Foto: Reprodução)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Vivemos uma época curiosa. Nunca foi tão fácil expressar uma opinião. Em poucos segundos, qualquer acontecimento gera milhares de comentários, análises, julgamentos e certezas. As redes sociais transformaram todos nós em potenciais comentaristas do mundo. Opina-se sobre política, economia, relacionamentos, empreendedorismo, educação, fé, comportamento e, muitas vezes, sobre a vida de pessoas que sequer conhecemos.

Essa transformação trouxe benefícios inegáveis. Nunca tivemos acesso a tanta informação, a tantos pontos de vista e a tantas oportunidades de aprendizado. No entanto, ela também produziu um fenômeno que merece reflexão: passamos a confundir a facilidade de opinar com a capacidade de compreender.

A impressão que tenho é que estamos vivendo uma era em que a opinião se tornou abundante, enquanto o repertório se tornou cada vez mais raro. Em poucos minutos, temas complexos são reduzidos a conclusões definitivas, pessoas são julgadas sem contexto e assuntos que exigiriam estudo, experiência e reflexão recebem análises superficiais apresentadas com a mesma convicção de quem dedicou anos ao tema.

O problema não está no direito de expressar opiniões. Uma sociedade livre depende justamente da pluralidade de ideias. O problema surge quando passamos a acreditar que toda opinião possui o mesmo grau de profundidade, preparo ou conhecimento.

Ter uma opinião sobre um assunto não significa compreendê-lo. Da mesma forma que ouvir alguém falar com convicção não significa que aquela pessoa tenha autoridade para ensinar sobre aquilo.

Vivemos um tempo em que a exposição passou a ser frequentemente confundida com competência. No entanto, existe uma diferença importante entre exercer uma atividade e desenvolver excelência nela. Uma pessoa pode ser falante sem ser comunicadora. Pode gravar vídeos diariamente sem dominar comunicação. Pode entrevistar pessoas sem compreender os fundamentos de uma boa entrevista. Pode administrar uma empresa sem possuir visão estratégica. Ferramentas ampliam uma voz. Competência continua exigindo estudo, prática, observação, repertório e tempo.

O que falta em muitas conversas atuais não é opinião. É repertório.

Repertório não é apenas acumular informações. Repertório é desenvolver a capacidade de relacionar conhecimentos, compreender contextos, identificar nuances e enxergar além das respostas mais óbvias. Ele é construído pela leitura, pela observação, pela experiência, pelas conversas profundas e, principalmente, pela disposição de continuar aprendendo.

É exatamente por isso que valorizo tanto a discordância.

Nos últimos anos, parece que desaprendemos a discordar. Divergir passou a ser interpretado como atacar. Como se ouvir alguém que pensa diferente representasse uma ameaça às nossas próprias convicções.

A experiência, porém, ensina exatamente o contrário.

Algumas das conversas mais enriquecedoras da minha vida aconteceram com pessoas que enxergavam o mundo de maneira diferente da minha. Não porque elas mudaram minha opinião imediatamente, mas porque me obrigaram a examiná-la melhor. Uma opinião que nunca é questionada dificilmente amadurece.

Discordar não é um problema.

O problema é perder a capacidade de ouvir.

Quando transformamos toda divergência em confronto, deixamos de aprender. Quando enxergamos quem pensa diferente como um adversário, perdemos a oportunidade de ampliar nossa compreensão do mundo. Afinal, ninguém constrói repertório vivendo dentro de uma bolha. Ninguém desenvolve pensamento crítico ouvindo apenas aquilo que já acredita.

Uma das maiores demonstrações de inteligência não está na habilidade de vencer discussões, mas na capacidade de participar delas sem abrir mão da curiosidade. O crescimento intelectual acontece justamente quando encontramos perspectivas diferentes das nossas e temos maturidade suficiente para considerá-las sem nos sentirmos ameaçados por elas.

Em uma época em que todos parecem disputar atenção, visibilidade e razão, precisamos resgatar uma virtude cada vez mais rara: a humildade intelectual. A capacidade de reconhecer que ninguém sabe tudo, que sempre existe algo novo para aprender e que uma boa pergunta pode ser mais valiosa do que uma resposta apressada.

Opiniões podem ser formadas em segundos. Repertório leva anos para ser construído. Já a sabedoria não nasce da necessidade de falar mais alto, mas da disposição de compreender mais profundamente.

Suellen Ribeiro – Empresária, mentora em posicionamento de marca pessoal e palestrante. Apresentadora do Jornal da Pampa – Grupo Rede Pampa.  Instagram @suribeiroc .

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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Jorge
26 de junho de 2026 10:25

Ótimo texto. Bem explicativo. Saber ouvir é tão importante quanto transmitir informação. O diálogo se torna compreensível, permitindo uma análise melhor.

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