Quarta-feira, 16 de setembro de 2026

CADASTRE-SE E RECEBA NOSSA NEWSLETTER

Receba gratuitamente as principais notícias do dia no seu E-mail.
cadastre-se aqui

RECEBA NOSSA NEWSLETTER
GRATUITAMENTE

cadastre-se aqui

Tecnologia Indústria global de falsos médicos feitos por IA viraliza entre idosos no Brasil

Compartilhe esta notícia:

Mercado de vídeos, ebooks e cursos incentiva conteúdo alarmista sobre saúde para prender a atenção de idosos e vender produtos. (Foto: GAI Media)

Celi Ferreira, de 82 anos, decidiu não fazer a cirurgia de catarata recomendada por seu oftalmologista. Enquanto assistia a vídeos no YouTube, recebeu uma recomendação sobre o tema, narrada por um suposto médico que prometia proteger a visão por meio do consumo de frutas.

“Não me animei [com a orientação do oftalmologista], pois ainda vejo bem. Agora vou seguir sua orientação”, escreveu ela nos comentários do vídeo.

O médico não existe: é um avatar criado por inteligência artificial. Embora o YouTube sinalize que o conteúdo foi gerado por IA, o vídeo alcançou quase 300 mil visualizações e cerca de 300 comentários, muitos de pessoas que buscam informações sobre saúde na terceira idade e acreditam estar recebendo orientação de um profissional real.

A publicação faz parte de uma estratégia adotada há pelo menos um ano por criadores de conteúdo em diversos países, que enxergam no público idoso um nicho lucrativo. O modelo também se espalhou pelo Brasil, muitas vezes copiado e adaptado de canais estrangeiros. O lucro pode vir das visualizações no YouTube e da venda de e-books e produtos anunciados nos canais.

Para aumentar a audiência, tutores ensinam a criar títulos e roteiros que despertem medo e sensação de urgência, levando o espectador a acreditar que corre risco imediato à saúde. Segundo esses criadores, os idosos são um público ideal porque passam horas assistindo a vídeos longos, podem ter renda disponível e tendem a confiar em quem promete ajudá-los.

A produção desse tipo de material pode ainda configurar crimes, segundo professores de direito ouvidos pela reportagem, como falsa identidade e exercício ilegal da medicina.

Celi disse à BBC News Brasil que a decisão de não fazer a cirurgia não foi motivada pelo vídeo e que costuma seguir apenas dicas de alimentação encontradas no YouTube. Ela se surpreendeu ao descobrir que o médico não existia.

“Esse vídeo apareceu para mim. Uso muito o YouTube. Não percebi que era inteligência artificial. Achei que fosse um médico de verdade, até porque o que ele falava parecia plausível. Não eram coisas absurdas. Pela minha idade, até me considero esperta com computador, mas ainda não sei distinguir o que é IA e o que é real”, afirmou.

Ela contou que conteúdos desse tipo aparecem com frequência em seu feed porque saúde é um dos assuntos que mais pesquisa na internet.

“Quando entro, aparecem vários vídeos. Aí acabo clicando para assistir.”

Celi disse que nunca seguiria recomendações de um vídeo para tomar ou interromper medicamentos e que é acompanhada pelo mesmo médico há mais de 20 anos.

A BBC News Brasil chegou até ela após coletar cerca de 27 mil comentários publicados nos vídeos desses canais e utilizar uma triagem para identificar relatos de mudanças de comportamento. Dezenas de comentários atribuídos a pessoas que dizem ser idosas relatam ter seguido orientações dos “médicos” gerados por IA, seja iniciando tratamentos caseiros, seja interrompendo medicamentos prescritos.

Juntos, esses canais somam ao menos 70 milhões de visualizações, segundo levantamento da organização sem fins lucrativos CTRL+Z. A produção ocorre em “escala industrial”: cerca de 10 vídeos por dia e aproximadamente 267 mil visualizações diárias. O levantamento também aponta indícios de uma operação em rede, com vídeos de conteúdo idêntico publicados em diferentes canais.

A BBC localizou vídeos com títulos praticamente iguais em inglês e espanhol, além de tutoriais que ensinam a produzir conteúdo para o nicho conhecido como “saúde sênior”. A atividade é apresentada como uma forma de faturar milhares de reais por mês usando apenas um computador e ferramentas gratuitas de IA.

Tatiana Dias, jornalista e diretora de programas da CTRL+Z, disse que percebeu a existência de uma rede organizada após encontrar um vídeo e receber outros por recomendação do YouTube.

“Deixou claro que se tratava de uma rede organizada, com conteúdos que se retroalimentavam impulsionados pelos algoritmos de recomendação”, disse.

Para a organização, remover os vídeos não resolve o problema. “Nossa ideia não é fazer (de graça) o trabalho que o Google/YouTube deveria estar fazendo, mas sim que essas plataformas sejam responsabilizadas legalmente por incentivarem e lucrarem com conteúdos nocivos para a saúde pública”, diz Luã Cruz, diretor de litigância da CTRL+Z.

Em nota, o Google afirmou que todo o conteúdo do YouTube, inclusive o gerado por IA, deve seguir as diretrizes da comunidade.

“Isso abrange nossas políticas sobre desinformação médica, que proíbem informações incorretas a respeito de prevenção e tratamentos capazes de causar, comprovadamente, danos graves no mundo real.”

A empresa diz que adicionou rótulos a conteúdos gerados por IA “para garantir que os espectadores estejam informados sobre o que estão assistindo.” (Com informações da BBC News Brasil)

Compartilhe esta notícia:

Voltar Todas de Tecnologia

Deixe seu comentário

Verificação de Email - você receberá um email de confirmação após enviar o seu primeiro comentário, mas ele só será publicado depois que você clicar no link de verificação enviado para a sua conta de e-mail para confirma-lo. Os próximos comentários serão publicados automaticamente por 30 dias!

0 Comentários
mais recentes
mais antigos Mais votado
Guta Stresser relembra briga com Pedro Cardoso e dispara: “Não pediu desculpas”
Ansiedade é a principal causa de incapacidade entre crianças brasileiras de 5 a 9 anos
Pode te interessar
0
Adoraria saber sua opinião, comente.x