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Lenio Streck A Linguagem PC ou “o que sobra do passado olhado pela lente do presente”?

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O que sobrará do passado, se o olharmos pela lente do presente?

Em tempos de polarização, até mesmo até mesmo a expressão “como aurora precursora” é considerado ofensivo (li isso na imprensa), assim como o verso “povo que não virtude…”, que já gerou até um projeto de lei na Assembleia Legislativa. Estou louco para ver. Disso, especificamente, falarei em outro momento, a partir de uma coisa chamada distância temporal. Que não é inimiga; é aliada, diz Gadamer. Caso contrário, o que sobrará do passado, se o olharmos pela lente do presente? Com todo o respeito e lhaneza.

De todo modo, aqui vai um acepipe. Dois textos que geraram polêmicas.

– O texto da professora Vivian Cabrelli Mansano.

Ela diz: Não sou homofóbica, transfóbica, gordofóbica.  Eu estava explicando um conceito de português e fui chamada de desrespeitosa por isso (ué).

Eu estava explicando por que não faz diferença nenhuma mudar a vogal temática de substantivos e adjetivos para ser “neutre”. Em português, a vogal temática na maioria das vezes não define gênero.

Gênero é definido pelo artigo que acompanha a palavra. O motorista. Termina em A e não é feminino. O poeta. Termina em A e não é feminino.

A professora pega pesado. Há uma boa análise do texto no Blog do Prof. Evandro de Oliveira, que aqui coloco como retranca. Ele também não concorda com o tema “gênero neutro”. Diz que a discussão é estéril. Mas pega mais leve.

Ainda com a professora, terminar uma palavra com E não faz com que ela seja neutra. A alface. Termina em E e é feminino. O elefante. Termina em E e é masculino.

Como o gênero em português é determinado muito mais pelos artigos do que pelas vogais temáticas, se vocês querem uma língua neutra, precisam criar um artigo neutro, não encher um texto de X, @ e E. E mesmo que fosse o caso, o português não aceita gênero neutro. Vocês teriam que mudar um idioma inteiro para combater o “preconceito”.

Concluindo, diz: Não faz absolutamente diferença mudar gêneros de palavras. Isso não torna o mundo mais acolhedor. E encerra dizendo coisas mais duras ainda. Não subscrevo tudo. Bom, eis a opinião forte da professora. Para refletir.
Sei da força das palavras. Porém, sei também que há discursos locucionários, ilocucionários e perlocucionários. Fazemos coisas com palavras, anunciava John Austin. Sei disso. Mas para isso há uma divisão entre os diversos tipos de discurso.

– O texto do jornalista

Outro texto é o de Helio Schwarzman. Ele havia publicado a coluna “Parabéns aos argentinos”, em que felicitava nossos vizinhos pela legalização do aborto. Levou um pau por ter usado “argentinos” em vez de “argentinas”, como preferiam.
Ele diz: Já tive mais paciência com a militância linguística. É claro que as assimetrias de poder que há na sociedade aparecem também no idioma, e devemos estar atentos a elas. Mas daí não decorre que a língua seja o melhor campo de batalha para aqueles que querem fazer avançar suas agendas, por mais legítimas que sejam.

O que me incomoda nessa batalha dos gêneros gramaticais é que ela imprime um viés emburrecedor, uma vez que estimula o literalismo dos falantes em vez de apostar em sua capacidade de abstração, uma das marcas da inteligência.
Quanto aos “argentinos”, já faz décadas que aprendi o português, mas, da última vez que chequei, no vernáculo, o plural que inclui todos os gêneros tinha forma igual à do masculino; o uso da forma feminina é que implicaria a exclusão de todos os legisladores e apoiadores que participaram do processo –o que me parece injusto. Meu ponto é que devemos escolher melhor nossas batalhas. Policiar a língua funciona melhor para aplacar a mente do militante do que para resolver injustiças e quebrar preconceitos. E, mais do que nunca, precisamos encontrar comunalidades que nos unam, não ressaltar diferenças que nos separam.

Pronto. Respeitando posições contrárias, concordo em parte com a professora e no todo com o jornalista. Pergunto: Isso me torna um reacionário, machista, homofóbico, transfóbico, gordofóbico, generofóbico e/ou racista por cantar o hino gaúcho?

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