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Saúde A menopausa impacta negativamente três a cada cinco mulheres no ambiente de trabalho

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Cansaço, irritabilidade, falta de concentração e confiança estão entre os sintomas que incomodam as mulheres neste período da vida. (Foto: Reprodução)

“Eu sempre fui uma pessoa bem tolerante no serviço, consciente, e agora eu já não estou mais assim”. Essa frase, dita pela enfermeira Marise Moraes, de 48 anos, poderia ter saído da boca de qualquer outra pessoa por uma série de transtornos corriqueiros vinculados ao ambiente profissional. Mas nesse caso específico, o problema não é um dos mais discutidos pelas mulheres no mercado de trabalho, apesar de ser uma fase que um dia irá chegar para todas elas: a menopausa.

Ainda vivenciando o climatério, o chamado período de transição entre a fase reprodutiva e a última menstruação, Marise se identifica com uma constatação do instituto de recursos humanos britânico Chartered Institute of Personnel and Development (CIPD) de que a menopausa exerce impacto sobre a vida profissional das mulheres, principalmente no quesito paciência no ambiente de trabalho.

O levantamento feito pela associação no Reino Unido apontou que os sintomas dessa fase causam um efeito negativo no trabalho de três a cada cinco pessoas do sexo feminino, o equivalente a 59%.

No total, foram entrevistadas 1.409 mulheres com idade entre 45 e 55 anos que já apresentavam os sintomas da menopausa. Daquelas que relataram terem sido afetadas negativamente no trabalho, 65% disseram que agora possuem dificuldade para se concentrar, 58% contaram que ficam mais estressadas e 52% afirmaram que se sentem mais impacientes com clientes e colegas.

Mesmo com os ânimos à flor da pele, a enfermeira afirma que ainda consegue se controlar, não tendo entrado em nenhum conflito no hospital onde trabalha. Mas além da impaciência, Marise começou a ter insônia, o que avalia ter afetado seu rendimento.

“Eu ainda estou conseguindo controlar, a questão é que agora meu sangue ferve mais rápido, meu pavio está curto. Eu poderia ficar calada em determinados momentos (no trabalho), agora, eu já falo logo. Antigamente, eu esperava um pouquinho mais, eu ficava observando, eu esperaria outra pessoa falar. Sobre a insônia, a gente fica um pouco mais cansada, não fica mais com tanta disposição, mas também nunca deixei de fazer meu serviço”, comenta a profissional.

Simone Vieira, de 48 anos, ainda menstrua todo mês, mas seus exames concluíram que há uma alteração hormonal provocada pela chegada do climatério. A fisioterapeuta afirma que seu humor não foi afetado, mas anda se sentindo mais cansada do que o normal. Além disso, ela vem sofrendo de incontinência urinária, um problema frequente na menopausa, que acontece devido à diminuição da produção de estrogênios durante esse período.

“O que eu percebi foi mesmo a questão do cansaço. No final do dia bate um cansaço muito grande. Já a incontinência urinária, eu comecei há poucos meses, nunca tive isso antes. Mas isso não chegou a atrapalhar no trabalho porque eu já estou ligada, não deixo ficar apertada, quando eu sinto vontade de ir no banheiro, vou logo. Mas eu já fico com aquela preocupaçãozinha, e eu às vezes emendo um paciente no outro, e quando vejo que estou com vontade já digo “olha, dá licença rapidinho, preciso ir ao banheiro”, conta Simone.

Juliana Esteves, ginecologista membro da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), explica que a menopausa é definida pelo período em que mulher fica um ano completo sem menstruar, mas seus sintomas podem preceder esse cenário de três a cinco anos. Em relação ao trabalho, a médica afirma que existe, sim, essa conexão entre o rendimento e os sintomas disfóricos da menopausa, principalmente.

“A gente tem sintomas desde as situações sociais, quando, por exemplo, ela está numa reunião, com o ar condicionado ligado no gelado, e ela está com uma blusa de alcinha e suando. Tem pacientes que relatam o constrangimento social por conta do fogacho. Outra questão com relação ao humor, a irritabilidade, principalmente. Elas ficam um pouco mais impacientes e menos concentradas por conta disso”, afirma a médica, que acrescenta: “Muitas mulheres lidam com a menopausa como se fosse uma parte final da sua vida, e na verdade é só uma nova fase, em que a gente tem que se adequar às mudanças que vão acontecendo”.

Tabu no trabalho

O levantamento da CIPD também chama atenção para a dificuldade que as mulheres têm em falar sobre a menopausa no ambiente de trabalho. Segundo o estudo, 30% das entrevistadas relataram ter tirado licença médica por conta dos sintomas, mas apenas um quarto delas assumiram para seus gerentes o verdadeiro motivo de sua ausência. Privacidade, constrangimento e a falta de suporte dos chefes, foram as razões mencionadas por essas profissionais.

Esse silêncio que é muitas vezes instaurado no ambiente de trabalho pode dificultar a implementação de medidas de assistência a essas mulheres. Para quebrar o estigma associado à menopausa, o CIPD recomenda que os empregadores eduquem e treinem os gerentes para que tenham conhecimento e estejam treinados para ter conversas sensíveis com as funcionárias sobre seus sintomas e quaisquer ajustes que possam ser necessários.

Dilza Taranto, consultora de recursos humanos, vai ao encontro dessa ideia e ainda propõe que as lideranças e as áreas de RH fiquem atentas às questões da mulher que podem influenciar em seu rendimento no trabalho.

“Eu penso que as lideranças e as áreas de RH têm que estar muito atentas juntas quando alguma mulher apresentar queda de produtividade. Os dois precisam atuar juntos, porque a mulher pode ficar envergonhada, sim, de dizer, por conta desses preconceitos. Então isso poderia ser uma política na empresa, dar canais para falar sobre isso e conversar mais abertamente”, indica.

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