Domingo, 21 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 10 de janeiro de 2021
A mão de obra altamente especializada está deixando o país. Profissionais de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) têm sido disputados a peso de ouro no mundo, deixando o Brasil com poucas chances de competir com salários oferecidos na Europa, nos EUA e no Canadá.
Com bolsas científicas minguando no país, pesquisadores de outras áreas de inovação também têm sido atraídos por oportunidades no exterior. A pandemia acelerou essa migração especializada, que já vinha acontecendo no país com a economia estagnada. Agora, com a expansão do home office, o profissional sequer precisa sair do Brasil para trabalhar no exterior. E ganhar em moeda estrangeira exatamente no momento que o real sofreu forte desvalorização.
E não há produtividade que aumente quando o país qualifica a mão de obra, mas não é competitivo para mantê-la. Acaba exportando inovação.
O setor de TIC vai precisar contratar 70 mil pessoas por ano até 2024 para dar conta da demanda, mas, como só forma 46 mil a cada ano, há um déficit crescente desses profissionais, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom).
É para a alemã BMW que o engenheiro da computação, Angelo da Silva Brito, de 32 anos, projeta sistemas embarcados. Ele trabalha em Portugal, para onde foi em 2019, numa empresa que presta serviços para a fornecedora desses sistemas à montadora alemã. Nesse período, já foi promovido e continua a receber propostas para ir para outros países.
“Durante a pandemia, já recebi oito propostas de emprego. Há empresas especializadas em buscar mão de obra de outros países. Procuram pessoas no mundo todo”, diz Brito, para quem a expectativa de melhor qualidade de vida e de crescimento profissional também pesa na decisão.
Oportunidade atraente
O engenheiro sempre foi refratário à ideia de sair do Brasil, principalmente de sua cidade, Recife, mas acabou não resistindo às oportunidades que se abriram na Europa. Ele trabalha no Cais de Gaia, no meio do polo turístico do Porto, com vista para a cidade histórica, mas teve de se reinventar. Especializado em hardware, em semicondutores, chips e processadores, viu esse mercado morrer no Brasil em 2016, ano que a economia brasileira encolheu 3,3%. Hoje, faz projetos de software de bordo.
A física Patrícia Ternes tem história semelhante. Em janeiro de 2019, recém-casada e sem pretensão de sair do país, mudou de área diante da chance de desenvolver sua carreira como pesquisadora na Universidade de Leeds, no Reino Unido, onde recebe uma bolsa de 40 mil libras por ano, o equivalente a R$ 24,3 mil por mês. Ela fez mestrado e doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), pesquisando física teórica computacional, com modelos para sistemas da natureza.
Seu foco era o comportamento da água. Mas ela não conseguiu bolsa de pós-doutorado. Tentou duas vezes, mas os dois últimos editais não foram cumpridos, afirma. Então decidiu trocar Porto Alegre pela cidade inglesa.
Marcia Barbosa, pesquisadora do Instituto de Física da UFRGS, foi professora de Patrícia, uma das duas alunas que ela perdeu para o exterior recentemente. Ela conta que, com medo de não conseguir financiamento, o cientista começa a questionar se vale a pena continuar a carreira por aqui. E ainda vê um viés de gênero, com maior interesse pelas mulheres.
“A pesquisa parou no Brasil, mas não no resto do mundo”, diz a professora. “Toda economia precisa de ciência e tecnologia para decolar. Isso me deixa muito brava. A gente forma pessoas, da graduação ao pós-doc, e, quando estão produzindo, não há uma bolsa para fixá-las no Brasil. Está todo mundo indo embora”, completou Marcia.
A professora Ana Maria Carneiro, da Unicamp, que está prestes a começar uma pesquisa sobre as motivações e o desenvolvimento da carreira desses profissionais no exterior, cita mais dois motivos para deixar o país: a falta de recursos para manutenção de laboratórios e a política.
“Existe autocensura. O pesquisador se pergunta: será que o que vou pesquisar vai provocar grupos conservadores radicais que podem me perseguir nas redes sociais? Se ele tem condições, sai do país”.
Os comentários estão desativados.