Quinta-feira, 05 de novembro de 2026
Por Redação O Sul | 4 de novembro de 2026
O Brasil está entre os países que passaram pelas mais intensas mudanças na cobertura e no uso da terra nas últimas décadas. Embora ainda tenha uma das maiores extensões de vegetação nativa do planeta, essa cobertura caiu de 79% para 65% do território brasileiro nos últimos 41 anos. Nesse período, 65 milhões de hectares de florestas e 46 milhões de hectares de savanas foram convertidos, principalmente, para usos agropecuários. Juntas, essas áreas somam 111 milhões de hectares, o equivalente a duas vezes a área da França ou toda a Bolívia.
Em contrapartida, a área de pastagem aumentou 59%, enquanto a de agricultura cresceu 258%, com novos 61 milhões de hectares de pastagens e 48 milhões de hectares de agricultura entre 1985 e 2025. Assim, em 2025, 60% da área agropecuária estava destinada às pastagens. Entre as culturas agrícolas, 80% da área é ocupada por soja (44 milhões de hectares) e cana-de-açúcar (11 milhões de hectares). As imagens de satélite confirmam o predomínio das monoculturas e a monotonia da paisagem agropecuária brasileira, que se reflete também na alimentação, com graves consequências para a natureza, os serviços ecossistêmicos e a saúde.
Com essas transformações, 59% dos municípios brasileiros passaram a ter a maior parte de seu território ocupada por usos agropecuários, e 744 deixaram de ter a vegetação nativa como cobertura principal em 2025. Dois terços do território brasileiro permaneceram com cobertura da terra estável entre 1985 e 2025. Porém, um terço (285 milhões de hectares, o que é maior que toda a Argentina ou a soma de Estados gigantes, como Amazonas e Pará) teve mudança no uso da terra.
Essa transformação também se expressa nas cidades. Entre 1985 e 2025, a área urbanizada do país mais que dobrou, passando de 1,9 milhão para 4,4 milhões de hectares. Somada, essa extensão já supera o território do Estado do Rio de Janeiro. Em 83% dos municípios brasileiros, a área urbana ao menos dobrou no período.
Mudanças dessa magnitude no uso da terra têm consequências para as emissões de gases de efeito estufa, a extinção de espécies e a qualidade e a quantidade das águas dos rios, alimentando catástrofes e as crises globais do clima, da biodiversidade e da água. Seus efeitos ameaçam a economia e a prosperidade da humanidade.
Esses são apenas alguns dos destaques da 11ª coleção de mapas produzidos pelo MapBiomas, uma iniciativa colaborativa revolucionária que nos permite compreender a cobertura e a dinâmica do uso da terra do Brasil por meio da interpretação de imagens de satélite disponíveis desde 1985. Pelos seus mapas podemos ver a foto de cada ano e um filme da série histórica. E este modelo pioneiro já está sendo replicado para diversos países da América Latina, da Ásia e da África, produzindo dados abertos com rigor científico e grande rapidez para apoiar a tomada de decisão rumo a um planeta sustentável e justo. A iniciativa conta com uma plataforma online em que cada brasileira e brasileiro pode explorar dados sobre o país, seu bioma, Estado, município ou bacia hidrográfica, com inúmeras possibilidades de análise.
O cenário mostrado pelo MapBiomas varia muito entre os biomas e Estados brasileiros. Em 2025, Amapá, Amazonas e Roraima, todos na Amazônia, tinham mais de 90% de seus territórios ocupados por vegetação nativa. Por outro lado, Alagoas, Sergipe e São Paulo estão entre os Estados com a menor proporção de vegetação nativa, abaixo de 22%, e têm em comum a presença do bioma Mata Atlântica em parte de seus territórios. O Rio de Janeiro, com 100% de seu território no bioma, foi o único Estado brasileiro a não apresentar perda da área total de vegetação nativa nos últimos 41 anos.
Essas contradições revelam a encruzilhada da Mata Atlântica e apontam possibilidades para o Brasil e para o mundo. É o bioma com a menor proporção de vegetação nativa do país, com uma história de mais de 500 anos de ocupação e destruição. Mesmo com esse histórico, a perda de vegetação nativa continuou nas últimas décadas, com a redução de 2,4 milhões de hectares desde 1985. Hoje restam somente 24% de cobertura florestal. Trata-se de uma perda que ocorre em uma das florestas tropicais mais ameaçadas e biodiversas do mundo e que, ao mesmo tempo, provê serviços ecossistêmicos e comida para mais da metade da população brasileira.
O pouco que sobrou está mal distribuído, degradado e fragmentado em muitos pequenos pedaços. Há municípios com menos de 5% de vegetação nativa remanescente, abaixo do mínimo necessário para garantir o futuro da floresta e de seus serviços ecossistêmicos. Apenas cerca de 10% do bioma está protegido por alguma categoria de unidade de conservação ou terra indígena. Como referência, o novo marco global da biodiversidade tem como meta proteger 30% das terras do planeta e restaurar pelo menos 30% dos ecossistemas degradados. Além disso, 80% do que sobrou de floresta no bioma está em terras privadas. Essas características diferenciam a Mata Atlântica da sua floresta tropical irmã no Brasil – a Amazônia.
O berço dessa solução e de um futuro esperançoso e otimista está no Brasil. A reversão da destruição da Mata Atlântica antecipa o que vem pela frente e deve ser referência para os outros biomas brasileiros e do mundo. Essa ambição é urgente, necessária e está ao nosso alcance. As informações são do jornal Valor Econômico.
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