Terça-feira, 09 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 10 de julho de 2016
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Eu o encontrei no universo tormentoso da política. Era de plagas distantes. Outro sotaque, outros comportamentos. Paciente e negociador, enquanto sempre fui polêmico e de decisões imediatas (as vezes não as melhores, como aprendi com o tempo). Honestos, sim, o que entendíamos não ser propriamente uma virtude. Era pré requisito de cidadania. Era obrigação.
Vindos da área jurídica – ambos professores de Faculdades de Direito – tinha acentuada vocação constitucionalista, enquanto eu ficava vinculado ao Direito do Trabalho, permitindo que, em geral, completássemos conhecimento. Eventualmente discordávamos, quando minha origem calabresa, me levava, sem me aperceber, que eu estava sendo discursivo, enquanto, com postura de claustro português, me contestava como se assoprasse as palavras.
Na sua carreira política chegou ao topo. Articulador confiável, sempre mostrou-se persistente mas paciencioso. Conseguia ser firme e decidido, apesar de evitar a contundência e jamais utilizar-se do ataque pessoal. No entanto, num momento em que a História do país chegou a uma encruzilhada decisória, não teve dúvida: abandonou as cercanias do Poder, cruzou a fronteira partidária e iniciou um movimento de rebeldia (criação de um dissidente partido liberal), não aceitando proeminentes cargos futuros de quem apoiava, se e quando vendedor.
Relembro essa circunstância, porque, se aceitasse o convite do quase futuro Presidente, para ser seu vice, teria chegado, pelo infausto da morte do vitorioso, a quem faltou saúde para assumir a Presidência e – fazendo a mágica repetida da previsão depois do fato – tenho certeza que nosso país, seria hoje, bem melhor do que é.
Enfermo, recolheu-se ao seu Nordeste fazendo, ao que parece, instintivamente, o caminho dos elefantes. De lá, vinham confusos boatos que procuravam interpreta-los tantos amigos comuns e incomuns, que a tantos tivera. Apesar disso, notícias chegavam: todas tristes. E pior: desanimadoras.
Entre a realidade – que me cobrava coragem – e a fantasia – que recordava como atual o que não era mais – decidi não ser omisso. E fui.
Disseram-me até que, manietado pela doença, ao saber – ainda parcialmente lúcido – o diagnóstico definido e definitivo, deixara uma espécie de penúltima vontade: preferia poupar os amigos e poupar-se de ser visto com a doença que lhe roubava o que de mais valioso possuía: a personalidade. O mal de Alzheimer era o seu malévolo (de forma irreversível) dominador.
Fui vê-lo, e não o vi. Quis encontra-lo e não o achei. Pensei ouvi-lo, mas não falou. Disse-lhe duas ou três frases e não escutou.Foi só então que percebi do erro que cometi. Ele não estava mais ali. Já havia partido.
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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