Terça-feira, 29 de setembro de 2026
Por Tatiane Dias Scotta | 29 de setembro de 2026
Existe um mito bastante comum: imaginar que a pessoa autista não tem sexualidade
Foto: DivulgaçãoEsta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Existe uma cena que se repete silenciosamente em muitas famílias: a criança autista cresce, o corpo muda, a adolescência chega…, mas os adultos continuam enxergando aquela criança.
A voz engrossa. Surgem pelos, mudanças hormonais, curiosidades, paixões, ereções, menstruação, desejo de tocar e ser tocado. O corpo avisa que uma nova fase começou. E algumas famílias ainda respondem: “Ele não entende essas coisas”. “Ela é tão inocente.” “Melhor nem falar sobre isso.”
É justamente aí que o silêncio pode se tornar perigoso. Existe um mito bastante comum: imaginar que a pessoa autista não tem sexualidade. Tem. A sexualidade faz parte do desenvolvimento humano, e adolescentes autistas também podem experimentar desejos, curiosidade, atração, necessidade de afeto e interesse por relacionamentos.
O que pode mudar é a maneira como compreendem sinais sociais, limites, regras de convivência e situações de intimidade. E isso faz toda a diferença. Porque não basta dizer “isso não pode”. É preciso ensinar o que pode, quando pode, onde pode, com quem pode e, principalmente, como saber se existe consentimento. Na psicologia comportamental, ensinar habilidades significa tornar aquilo que parece abstrato mais concreto. Para alguns adolescentes, “respeitar o espaço do outro” pode ser uma frase bonita, mas vaga.
Já exemplos objetivos funcionam melhor: partes íntimas são privadas. Determinados comportamentos pertencem a espaços privados, ninguém deve tocar no meu corpo sem consentimento; eu também não toco no corpo de alguém sem permissão, um “não” precisa ser respeitado; e eu posso dizer “não” mesmo quando gosto da pessoa. Pode parecer óbvio para um adulto.
Para quem precisa aprender explicitamente algumas regras sociais, isso pode ser essencial. Também precisamos falar sobre internet. Se a família não ensina sobre sexualidade, o algoritmo ensina. E ele não tem compromisso com idade, maturidade, consentimento ou segurança. Educação sexual não significa incentivar a vida sexual. Significa oferecer conhecimento para que o adolescente compreenda o próprio corpo, reconheça limites, identifique situações inadequadas, faça perguntas, proteja sua privacidade e possa construir relações mais seguras. E aqui entra uma tarefa delicada para pais e familiares: trocar a vigilância pela orientação.
Não é preciso transformar a sala de casa em consultório. Nem esperar surgir um problema para conversar. A sexualidade pode entrar nas pequenas conversas do cotidiano, com linguagem direta, respeitosa e adequada à idade. Sem piadas que humilham. Sem sustos. Sem tratar o desejo como algo vergonhoso. E, quando houver dificuldade, buscar profissionais preparados para trabalhar sexualidade e autismo pode fazer uma enorme diferença.
Psicólogos, médicos, terapeutas e educadores podem ajudar a família a construir estratégias individualizadas, considerando comunicação, nível de compreensão, autonomia, questões sensoriais e contexto familiar. Talvez uma das maiores formas de proteção seja justamente esta: ensinar. Porque infantilizar não protege. Silenciar não prepara. E proibir sem explicar não ensina. O adolescente autista vai crescer. Vai precisar compreender o próprio corpo, fazer escolhas, reconhecer limites, lidar com desejos, talvez se apaixonar, talvez querer namorar.
E nós, adultos, precisamos crescer junto com ele nessa conversa. Não para controlar sua sexualidade. Para ajudá-lo a vivê-la com informação, respeito, autonomia e segurança. Porque quando o autismo cresce, a sexualidade também chega. E ela não deveria encontrar uma porta fechada.
Até a próxima consulta.
* Tatiane Scotta, psicóloga, sexóloga e palestrante
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
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