Domingo, 18 de janeiro de 2026
Por Redação O Sul | 5 de janeiro de 2026
A mudança nas regras de provisionamento contábil dos bancos, aliada ao impacto da inadimplência em alta no crédito rural, deverá deixar o ambiente de concessão de novos financiamentos ao campo ainda mais apertado e restrito em 2026. Apesar de existir “remédio imediato” para a situação, com alongamentos e renegociações de dívidas, o “tempo de cura” dessas operações é mais longo na carteira dos bancos, que ainda passarão um período “enxugando gelo”.
Essa é a avaliação de Carlos Aguiar, diretor de agronegócios do Santander e um dos principais especialistas no assunto. Segundo ele, a resolução 4.966/2021 do Banco Central, que entrou em vigor no início de 2025, gerou um “bate-cabeça” no setor financeiro e seguirá impactando a oferta de crédito à agropecuária em 2026.
A nova regra é mais conservadora, exige provisões de perdas esperadas a cada financiamento concedido e é muito mais rígida em casos de operações vencidas e em inadimplência, em uma classificação por estágios. Nos casos de atrasos acima de 90 dias, por exemplo, o provisionamento pode ser superior a 50% do valor emprestado, dinheiro que fica retido e impede novos movimentos.
E o cenário é mais difícil ainda para retroceder. Mesmo se a dívida for renegociada e o devedor reforçar garantias, a provisão bancária só poderá diminuir à medida que as parcelas forem pagas. “No agro, isso significa pelo menos um ano e meio a dois anos, já que são parcelas semestrais ou anuais”, afirmou Aguiar ao Valor.
“Para reverter esse provisionamento, vamos precisar de muito mais prazo do que costumava precisar antes. O que atrapalha é o tempo de cura. O remédio pode até ser imediato, que é dar uma solução financeira, mas a cura é ridiculamente longa”, apontou.
Tudo isso vai manter o mercado financeiro mais restritivo em 2026, disse o executivo. Também haverá mais exigências de garantias. “Virou a chave”, afirmou.
O ano de 2025 foi “muito difícil”, e parte da carteira do Santander sofreu mais, disse Aguiar, como a de produtores de grãos e criadores de gado do Rio Grande do Sul, Goiás e Mato Grosso.
“Não cresci a carteira em 2024 e não vou crescer em 2025. A carteira está estável. Estou repondo com clientes melhores e maiores aquilo que estou provisionando em clientes piores, mas estou enxugando gelo, a carteira não cresce”, disse.
Para 2026, ele prevê um cenário novamente de estabilidade. Os fatores que poderiam fazer a carteira crescer não existem, como alta na rentabilidade do campo, expansão de custos de produção ou aumento do faturamento puxado por preços.
“Vamos precisar de umas três safras para o mercado voltar. Não vai ser em 2026, talvez em 2027”, avaliou.
Como há muita alavancagem no setor, há diferentes ações para “limpar a carteira”. Em alguns casos, há reforço em garantias e alongamento de prazos para que o produtor tenha tempo de vender ativos e “ficar menor” novamente até se estabilizar. Em outras situações, o agricultor tem parcelas vencidas por conta de atrasos pontuais na lavoura, e volta a ficar adimplente em pouco tempo. Mesmo assim, isso impacta a necessidade de provisão e aperta o caixa do banco.
O diretor do Santander disse ver espaço para aumentar financiamentos de curto prazo para esses produtores via tradings e revendedoras de insumos. “Quem tem garantia real vai alongar operações e a necessidade de curto prazo vai ser com essas empresas. O mercado vai ficar mais dois anos até os estágios de provisão voltarem a ficar mais saudáveis e começar a desalavancar”, refletiu Aguiar.
O pior cenário, reforçou o executivo, é de quem está com problemas e não conversa com o banco à espera de uma “solução milagrosa” do governo ou da opção da recuperação judicial. “Esse público é uma tragédia, esses produtores nós estamos executando a dívida”, completou. As informações são do site Globo Rural.