Sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
Por Renato Zimmermann | 22 de janeiro de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Ailton Krenak, hoje com 72 anos, tornou-se uma das figuras mais emblemáticas da reflexão contemporânea sobre humanidade e natureza. Líder indígena da etnia Krenak, nascido em Minas Gerais, sua trajetória é marcada pela dor de ter visto, ainda jovem, seu povo ser assassinado e expulso das margens do Rio Doce. Essa experiência brutal moldou sua consciência e sua luta, transformando-o em um dos mais importantes pensadores brasileiros.
Em 2023, Krenak entrou para a Academia Brasileira de Letras, tornando-se o primeiro indígena a ocupar uma cadeira na instituição, um marco histórico que simboliza não apenas o reconhecimento de sua obra, mas também a abertura de espaços antes negados às vozes originárias. A filosofia de Krenak é construída sobre a ideia de que a humanidade precisa reaprender a se relacionar com a Terra. Para ele, o rio não é um recurso, mas um irmão; a floresta não é um estoque de madeira, mas um organismo vivo que nos sustenta.
Essa visão rompe com a lógica desenvolvimentista que enxerga a natureza como algo a ser explorado e consumido. Em suas palavras e livros, Krenak nos convida a abandonar a mentalidade utilitarista e a recuperar o espírito de pertencimento à Terra. Obras como Ideias para Adiar o Fim do Mundo, O Amanhã Não Está à Venda e A Vida Não É Útil são convites à pausa, à contemplação e à reflexão em um mundo cada vez mais instantâneo e imediatista. Ele nos lembra que, em meio à avalanche digital e tecnológica, é difícil parar para ler um livro, mas é justamente nesse gesto de desaceleração que reside a possibilidade de reconexão com o essencial.
Foi durante minha participação na COP30, em Belém do Pará, que o nome de Krenak começou a ressoar com mais força em minha mente. Embora ele não tenha estado presente no evento, sua filosofia e suas críticas às conferências climáticas, que muitas vezes se transformam em “balcões de negócios”, ecoaram em minhas reflexões. Ao mesmo tempo, senti a necessidade de resgatar a memória de José Lutzenberger, pioneiro da luta ambiental no Brasil, e vincular seu legado à missão de uma transição energética justa.
Esse exercício de memória e consciência foi meu, mas inspirado pela integridade e pela coerência que encontro nas mensagens de Krenak. Sua postura crítica me impactou e me levou a mergulhar mais fundo em seus ideais, compreendendo o valor de suas mensagens e a urgência de aplicá-las em nossa realidade.
O sobrenome Krenak carrega a identidade de sua etnia, e sua filosofia é sempre coletiva. Ele pensa nas conexões entre o homem e a natureza, lembrando que o rio é um irmão, que a floresta é uma mãe, que a Terra é um organismo do qual fazemos parte. Essa visão, que pode parecer poética, é na verdade profundamente prática: sem rios, sem florestas, sem equilíbrio ecológico, não há futuro para a humanidade. A luta pela preservação da Amazônia é, nesse sentido, uma luta pela sobrevivência de todos nós. No entanto, nossa civilização, construída sobre uma mentalidade desenvolvimentista, ainda não compreende plenamente essa riqueza natural. O espírito de coletividade está adormecido, e talvez Krenak tenha despertado em mim uma nova consciência.
Voltei da COP30 com mais ingredientes evoluídos para que minha própria mensagem seja melhor compreendida. O pensamento de Krenak é vital para a sociedade moderna porque nos oferece uma alternativa ao modelo fragmentado e polarizado que domina o mundo. Ele nos mostra que a natureza é neutra, que não convive com as paixões e idealizações humanas, e que precisamos redesenhar nosso pensamento universal em busca de harmonia.
Esse redesenho não é apenas filosófico, mas também econômico: negócios sustentáveis só terão integridade se forem desenvolvidos respeitando a essência da natureza. Empresas e governos precisam compreender que desenvolvimento sustentável não é marketing, mas compromisso real com a vida.
Os desafios são enormes. A geopolítica global, marcada por disputas de poder, dificulta consensos ambientais. As mudanças climáticas avançam em ritmo acelerado, provocando crises humanitárias e ecológicas. A desinformação enfraquece a consciência coletiva, enquanto guerras desviam recursos e atenção da urgência climática.
Mas, apesar de tudo, a mensagem de Krenak é esperançosa. Ele nos lembra que ainda há tempo de adiar o fim do mundo, desde que cultivemos consciência, coletividade e respeito à Terra. Sua voz ancestral ecoa como um chamado para que possamos construir um futuro em que humanidade e natureza caminhem juntas, não como inimigas, mas como irmãs.
* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética. Contato: rena.zimm@gmail.com
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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