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Variedades Alzheimer: cientistas relatam caso de melhora de paciente de 80 anos após uso de psilocibina

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Nova Zelândia aprova tratamento com psilocibina. (Foto: The New York Times)

Pesquisadores brasileiros publicaram na revista científica Frontiers in Neuroscience Neuropharmacology um relato de caso de uma paciente de 80 anos com doença de Alzheimer que apresentou melhora em alguns indicadores após receber um tratamento com psilocibina, substância psicodélica presente em alguns fungos conhecidos como “cogumelos mágicos”.

A publicação é de apenas um caso, ou seja, não representa uma evidência de eficácia ou segurança do uso da psilocibina como tratamento. Ela não envolve um grande número de pacientes dentro de uma pesquisa rigorosa que permita estabelecer causalidade entre o tratamento e o desfecho estudado. Ainda assim, relatos do tipo podem gerar hipóteses para serem exploradas em estudos maiores.

No experimento, os pesquisadores acompanharam uma mulher de ascendência japonesa octogenária que vivia sob supervisão contínua da família e com apoio de cuidadores e tinha um declínio cognitivo e funcional progressivo decorrente de um diagnóstico de Alzheimer que evoluiu ao longo de aproximadamente 10 anos.

Segundo escrevem no artigo, durante os cinco anos anteriores ao tratamento, a fala da paciente tornou-se predominantemente monossilábica, acompanhada por redução severa da interação espontânea, incontinência urinária crônica, disfunção executiva, mobilidade prejudicada, disfagia (dificuldade ou incapacidade de engolir alimentos) e grau elevado de dependência para atividades da vida diária.

Como parte do experimento, foi administrada uma dose oral única de 5g de cogumelo da cepa Enigma contendo psilocibina. A dose escolhida foi selecionada “com base em observações experienciais prévias sobre a profundidade e a duração dos efeitos neurocomportamentais induzidos por psicodélicos”, afirmam os autores no estudo.

Durante a primeira sessão, a paciente apresentou sudorese e sonolência profunda. Aproximadamente 19 horas após a administração, os pesquisadores relatam que ela iniciou espontaneamente uma conversa autobiográfica “que durou várias horas”.

“Diversas melhorias clinicamente significativas persistiram por semanas após a primeira intervenção, incluindo restauração da continência urinária, melhora da mobilidade, aumento da reciprocidade emocional, maior comunicação espontânea e melhora da interação social contextual”, continuam.

Um mês depois, foi realizada uma segunda sessão com 3g de cogumelos contendo psilocibina devido à persistência de melhorias clinicamente significativas, incluindo a manutenção da continência urinária.

Durante a segunda dose, a paciente “permaneceu significativamente mais expressiva verbalmente ao longo de toda a experiência e descreveu imagens emocionalmente positivas envolvendo surfar com seu filho em uma ilha tranquila”, diz o relato do caso.

Nenhum efeito adverso grave persistente foi observado durante o acompanhamento. A segunda administração da psilocibina foi associada a uma “maior expressividade verbal, melhora da mímica facial, humor espontâneo, imagens autobiográficas carregadas de emoção e maior agilidade ao caminhar”.

Segundo os autores, uma das possíveis explicações para isso é a relação da substância psicodélica com mecanismos cerebrais ligados ao sono, o que pode “refletir interações entre a modulação de redes induzida pela psilocibina e a neurofisiologia basal alterada característica da doença de Alzheimer avançada”.

Os responsáveis pelo relato também citam que trabalhos recentes demonstraram uma reorganização acentuada das redes do cérebro após a administração da substância, o que leva à “hipótese de que a psilocibina pode facilitar temporariamente a reintegração funcional de sistemas neurais residuais em doenças neurodegenerativas”.

Ainda assim, os autores reconhecem as limitações da publicação, como o fato de ser o relato de um caso único, da paciente não ter confirmação formal do Alzheimer por biomarcadores nem exames avançados de neuroimagem e pela ausência de métodos mais avançados de acompanhamento.

“Não é possível estabelecer causalidade, e flutuações espontâneas inerentes às doenças neurodegenerativas não podem ser completamente excluídas (…) O presente relato deve ser compreendido principalmente como uma descrição observacional detalhada destinada a gerar hipóteses para futuras investigações controladas”, afirmam.

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