Sexta-feira, 04 de Dezembro de 2020

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Música Amigos e especialistas lamentam a “miserabilidade” de João Gilberto

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Amigos falam com abatimento ao ver a agonia do músico. (Foto: Reprodução)

Afinal, o que pode ser feito pelo homem mais importante da música brasileira? João Gilberto, por ser patrimônio, não seria caso de mobilização popular? Por ter elevado o Brasil da condição de país exótico até os anos 1950 à de superpotência criativa não lhe caberia intervenção?

João está agora em outro endereço, supostamente melhor cuidado do que em seu exílio no Leblon. Foi retirado nas sombras de uma madrugada silenciosa, em carro de amigos e um coração em descompasso. Agora, duas médicas se desdobram para atendê-lo com o mínimo de invasões na maior missão de suas carreiras. Caetano liga com jeito, de baiano para baiano. “Você precisa ir ao médico, João…”. Mas ele prefere o violão. Aos 86 anos, João nunca entrou em um hospital.

Amigos falam com abatimento ao ver a agonia do músico. “Eu sinto uma consternação enorme, porque sei da verdade que é essa dimensão reclusa do João, o quanto isso faz parte de uma escolha, de um modo de vida. Ele está lá para se preservar e preservar o mundo ao seu redor. João não quer atrapalhar o mundo”, diz Gilberto Gil.

O escritor Ruy Castro, que costurou Chega de Saudade com a vida de João Gilberto, preocupa-se com a superpopulação, para os padrões gilbertianos, que pode estar a seu redor nesse momento. “Deus livre João Gilberto de ver estranhos batendo à sua porta tentando ‘ajudá-lo’. E, entre os estranhos, incluo todo mundo.” Dentre os cuidadores possíveis, o escritor só confia na filha, Bebel Gilberto. “O problema de João compete exclusivamente à Bebel, a única pessoa lógica e confiável em toda essa história, e aos médicos a que ela entregar seu pai.” Mais do que um caso de saúde pública, João, para Ruy, seria vítima de um caso de polícia: “Quanto ao dinheiro que ele tinha e sumiu, quem deve cuidar disso é a polícia. Se o dinheiro aparecer, todas as suas dívidas serão saldadas e ainda lhe sobrará troco.”

Tom Zé, outro joãoniano de criação, lembra que não se trata do primeiro derretimento de João Gilberto. Em 1999, ao inaugurar com Caetano Veloso o Credicard Hall, “a maior casa de espetáculos da América Latina”, João não se intimidou com o tilintar das joias da primeira fila e, mesmo recebendo 60 000 reais de cachê e pisando em tapetes reais, resolveu ser fiel apenas ao seu violão. “Nunca mais piso aqui”, disse, ao ouvir o eco que não deixava suas pausas em paz.

E então, quando a vaia da plateia parecia enterrá-lo, devolveu com um gesto desconcertante: “Vaia de bêbado não vale”, cantarolou, mostrando a língua. Em Juazeiro da Bahia, há 70 anos, João se emocionava ao ver os caminhões chegando pela estrada de terra sob as aroeiras: “Olha só como as árvores acariciam a cabeça daqueles caminhões”, dizia aos amigos. Gil está certo. Era delicadeza demais para o mundo que está fora de seu apartamento.

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