Quarta-feira, 05 de agosto de 2026
Por Gisele Flores | 3 de agosto de 2026
Alexandre Castro, CEO da Kontik Business Travel.
Foto: Alan Teixeira.
A medicina contemporânea já não se sustenta apenas na precisão técnica. Cada vez mais, o cuidado com o paciente exige habilidades humanas – empatia, comunicação clara e liderança. Foi com esse olhar que a Associação Médica do Rio Grande do Sul (AMRIGS), em parceria com o Royal College of Surgeons of Edinburgh, promoveu em Porto Alegre o Workshop Non-Technical Skills for Surgeons (NOTSS), uma capacitação inédita no Estado voltada ao desenvolvimento de competências comportamentais que impactam diretamente a segurança do paciente.
O encontro reuniu médicos e profissionais da saúde em um ambiente de troca e reflexão sobre temas como tomada de decisão, consciência situacional e trabalho em equipe. Mais do que um curso, o evento simbolizou uma mudança cultural: reconhecer que a técnica salva vidas, mas é o comportamento que garante que elas sejam preservadas com humanidade.
Formação pioneira e visão internacional
Na abertura, o presidente da AMRIGS, Dr. Gerson Junqueira Jr., destacou o caráter inovador da iniciativa. “Receber este workshop pela primeira vez no Rio Grande do Sul representa um avanço para a formação médica. A AMRIGS tem o compromisso de aproximar os médicos das melhores experiências internacionais e contribuir para uma assistência cada vez mais segura e qualificada”, afirmou.
O coordenador do Núcleo de Inovação e Tecnologia da entidade, Dr. Otávio Cunha, reforçou a importância de preparar os profissionais para lidar com adversidades. “Nós vamos errar. Então, antes de nos colocarmos na situação deste erro, precisamos saber como mitigar seus impactos e como nos posicionar diante dele. Construir uma cultura em que esses momentos possam ser discutidos de forma aberta é um passo importante para tornar a assistência mais segura.”
NOTSS: comportamento como ferramenta de segurança
A condução do workshop ficou a cargo dos médicos Artur Zanellato, James Edward Tomlinson e Michael John Moneypenny, representantes do Royal College of Surgeons of Edinburgh. O método NOTSS, criado pela instituição escocesa, é reconhecido mundialmente por integrar aspectos técnicos e comportamentais na prática cirúrgica.
Dr. Zanellato explicou que o objetivo é complementar a formação técnica com competências humanas: “As habilidades técnicas são essenciais, mas precisam caminhar junto com as não técnicas. Ao final deste evento, queremos que os participantes consigam reconhecer as quatro categorias do método e aplicar esses conceitos para fortalecer a comunicação, a liderança e a tomada de decisão das equipes.”
Durante as atividades, Dr. Moneypenny destacou o equilíbrio entre técnica e comportamento: “Se você não for um bom cirurgião, ter uma boa comunicação não vai ajudar. O conhecimento técnico continua indispensável, mas precisa estar aliado à capacidade de trabalhar em equipe e tomar boas decisões sob pressão.”
Tomada de decisão e consciência situacional
Ao abordar os desafios enfrentados em procedimentos complexos, Moneypenny lembrou que decisões precisam ser tomadas mesmo diante de dados incompletos. “Tentamos tomar a melhor decisão com base nas informações que temos, mas, às vezes, percebemos depois que outras informações poderiam ter mudado aquele cenário. Além disso, convivemos com mudanças de última hora, pressão do tempo e distrações. É justamente por isso que essas competências fazem tanta diferença.”
Dr. Tomlinson conduziu parte das discussões sobre as quatro categorias do NOTSS – consciência situacional, tomada de decisão, comunicação e liderança – analisando vídeos de procedimentos reais. “A consciência situacional começa antes mesmo do procedimento. É preciso compreender o contexto, conhecer quem faz parte da equipe e garantir que todos tenham clareza sobre seus papéis. Esses fatores influenciam diretamente a qualidade das decisões e a segurança do paciente.”
Prática e reflexão coletiva
Na segunda parte da manhã, os participantes foram divididos em grupos para discutir casos clínicos e propor alternativas diante de situações críticas. O exercício estimulou o debate sobre confiança e feedback entre colegas, como ressaltou Dr. Otávio Cunha: “Na imensa maioria das vezes, eu acato o que minha equipe me sugere e eles não se sentem incomodados de me confrontarem.”
Durante a tarde, os módulos abordaram comunicação, trabalho em equipe e liderança, com novas análises de casos e estratégias para aplicar o NOTSS na rotina hospitalar. A dinâmica reforçou que a construção de uma cultura de segurança depende de espaços de diálogo e da valorização da experiência coletiva.
Compromisso com a segurança do paciente
A realização do workshop reforça o papel da AMRIGS como referência em educação médica continuada e sua missão de aproximar os profissionais gaúchos das principais práticas internacionais. A parceria com o Royal College of Surgeons of Edinburgh simboliza um passo decisivo na consolidação de uma cultura de segurança e excelência na medicina.
Como sintetizou Dr. Zanellato: “A técnica salva vidas, mas é o comportamento que garante que elas sejam preservadas com segurança e humanidade.” (Por Gisele Flores – gisele@pampa.com.br)
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