Segunda-feira, 28 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 22 de abril de 2020
Um novo estudo americano ainda não publicado e revisado por pares analisou uso de hidroxicloroquina e azitromicina em pacientes internados de Covid-19 e não observou eficácia do tratamento em reduzir mortes ou necessidade de respiração com auxílio de máquinas.
Os pesquisadores usaram informações do banco de dados americano do sistema de saúde destinado a veteranos dos Estados Unidos referentes ao período de 9 de março a 11 de abril.
A pesquisa encontrou também uma mortalidade maior nos pacientes que tomaram somente hidroxicloroquina. Problemas metodológicos, porém, não permitem tirar conclusões seguras sobre uso da droga.
Ao todo, foram incluídos na análise 368 pacientes, a maior parte deles negros, todos homens e com uma média de idade acima de 65 anos.
Os próprios autores afirmam, na pesquisa, que esse recorte etário e de gênero pode não ser visto em populações mais jovens ou de mulheres.
Nos dados analisados pelos pesquisadores, 97 pacientes foram medicados com hidroxicloroquina, 113 com a combinação de hidroxicloroquina e azitromicina e 158 tiveram somente o tratamento padrão para a doença (remédios sintomáticos). Os pacientes que receberam as outras drogas também continuaram a receber, de modo associado, o tratamento comum.
Comparado ao grupo que não tomou as medicações, os cientistas encontraram um maior risco de morte no grupo que tomou somente hidroxicloroquina. Nenhuma diferença foi encontrada em relação ao grupo que tomou a combinação de hidroxicloroquina e azitromicina.
Especialistas afirmam que a maior mortalidade verificada pode ser devida a diversos fatores. Nos pacientes que receberam as drogas, por exemplo, a doença estava mais severa.
“Considerando-se que aproximadamente 80% dos pacientes com formas leves e moderadas da doença vão se recuperar, provavelmente os pacientes que não tomaram medicação teriam melhor evolução de qualquer maneira”, diz Leonardo Weissmann, consultor da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia).
Além disso, não há randomização dos pacientes, ou seja, a droga não era distribuída aleatoriamente para os participantes do grupo. A distribuição aleatória de quem receberá ou não a droga é um fator que minimiza os riscos de vieses na pesquisa.
Com isso, segundo Weissmann, o estudo não traz novidades.
De toda forma, dizem os autores, “esses achados demonstram a importância de esperar os resultados de estudos prospectivos, randomizados e controlados já em andamento antes da adoção maciça do uso dessas drogas”.
Algo na mesma linha de cautela consta em um documento recente da SBI. “A Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) manifesta sua grande preocupação pelo uso indiscriminado de medicamentos, vitaminas, antioxidantes, entre outros, sem qualquer comprovação científica de eficácia e segurança de seu uso.”
A sociedade afirma que os estudos não randomizados e não controlados trarão, se muito, evidências científicas fracas de segurança e eficácias de medicamentos, sejam eles quais forem. “Corremos o risco de centenas de milhares de pacientes receberem medicações que, ao final, não saberemos se são eficazes e seguras contra a Covid-19”, afirma o documento, datado de 19 de abril, que aponta uma série de critérios para a condução adequada da pesquisa científica sobre a doença.
Os comentários estão desativados.