Sábado, 17 de janeiro de 2026
Por Redação O Sul | 16 de janeiro de 2026
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o registro do lecanemabe (sob o nome comercial Leqembi), da farmacêutica Eisai, medicamento indicado para pacientes com diagnóstico da doença de Alzheimer em estágios iniciais.
Trata-se de um medicamento biológico (quando o princípio ativo vem de organismos vivos, tecidos ou células), aprovado em 48 países, que atua contra a beta-amiloide – proteína que cria placas no cérebro de indivíduos com Alzheimer. A indicação é restrita a quadros iniciais da doença, como o comprometimento cognitivo leve ou a demência leve.
O neurologista Paulo Caramelli, professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas (UFMG), explica que o medicamento é indicado para pacientes que apresentam alterações sutis, como mudanças de memória e cognição perceptíveis tanto pelo próprio paciente quanto por familiares. “É destinado a casos em que não há prejuízo significativo da autonomia, como em atividades básicas de higiene e banho.”
O lecanemabe é o segundo medicamento liberado no Brasil para pacientes com Alzheimer. Em abril, a Anvisa aprovou o donanemabe (Kisunla), da Eli Lilly. Segundo Caramelli, os dois fármacos atuam de forma semelhante, por serem anticorpos monoclonais antiamiloides, mas agem em momentos diferentes do processo de maturação da proteína. “Eles interferem no depósito da proteína em fases distintas. Não existe, até o momento, um estudo comparativo direto entre as duas drogas.”
Do ponto de vista clínico, assim como o donanemabe, o lecanemabe não promove ganhos sintomáticos perceptíveis. “Os pacientes não percebem melhora imediata da memória ou do desempenho cognitivo”, afirma Caramelli. “Essas medicações atuam retardando a progressão do declínio cognitivo e funcional.”
Em estudos com acompanhamento de aproximadamente um ano e meio, os pacientes tratados apresentaram redução da progressão da doença superior à observada no grupo que recebeu placebo.
Contraindicações
A realização do teste genético para APOE 4(E4) é necessária antes do início do tratamento. No Brasil e em outros países, pacientes com essa condição têm contraindicação ao uso do medicamento. Os principais eventos adversos observados em estudos são edema cerebral, pequenos sangramentos no cérebro e dor de cabeça sobretudo nesse grupo de pessoas. “É recomendada a realização de uma ressonância magnética até um ano antes do início do tratamento para excluir riscos como doença vascular cerebral significativa ou áreas prévias de micro-hemorragias”, completa Caramelli.
Custo alto
O alto custo e a logística complexa são os principais desafios para a incorporação do medicamento na rede pública de saúde, o que hoje inviabiliza sua utilização no Sistema Único de Saúde (SUS). O preço no País ainda não foi definido, mas, nos Estados Unidos, o custo por ano do tratamento é de cerca de U$ 26 mil (R$ 140 mil).
No caso do donanemabe, cuja comercialização teve início em agosto do ano passado, o medicamento não foi incorporado ao SUS. Para Caramelli, é importante que centros brasileiros e especialistas adquiram experiência com essas medicações para que, futuramente, discuta-se uma possível implantação na rede pública. As informações são de O Estado de S. Paulo.