Sexta-feira, 23 de Outubro de 2020

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Geral Aplicativos e playlists mudam a relação das novas gerações com a música

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Mesmo com a globalização e o maior acesso à internet, o brasileiro continua preferindo a música brasileira. (Foto: Reprodução)

O que Ed Sheeran, BTS, Shawn Mendes, Beyonce e Taylor Swift têm em comum? Além de ter a música como profissão, todos os artistas citados estão no top 5 de uma pesquisa realizada pela agência Sweety High, nos Estados Unidos, com mulheres da geração Z (idade entre 13 e 22 anos), em 2018. As escolhas musicais demonstram que a geração que está consumindo música pelo celular não se importa mais com os “gêneros musicais”.

Pode ser irônico porque quando olhamos para o passado lembramos que a polarização que hoje enxergamos na política acontecia também na música. Dificilmente alguém passaria pela adolescência sem se posicionar a favor de um gênero musical. Um fã de heavy metal faria tudo que pudesse para não ser flagrado ouvindo uma balada sofrida do Bryan Adams – mesmo que isso ocorresse com frequência.

Marcus Preto, de 46 anos, diretor musical de nomes como Gal Costa, Tom Zé, Silva e Scalene, reforça o argumento: “Era de se esperar que chegássemos a essa abertura com a facilitação do acesso à música. Antes, quando vivíamos sob a dominação das mídias físicas, tínhamos que selecionar bem em qual artista ou banda gastaríamos nosso dinheiro. Arriscar comprar um disco de alguém muito fora do que consumíamos normalmente, podia significar jogar dinheiro fora”.

Uma pesquisa, realizada pelo Spotify, também em 2018, mostrou que a influência musical tanto pra homens quanto para mulheres atinge seu pico entre 13 e 14 anos. Ter um rótulo musical, anteriormente, te ajudava a pertencer a grupos e tribos urbanas. Era uma maneira de ganhar identificação e reconhecimento. Poucos se misturavam e tinham bom trânsito em vários estilos. E isso servia para vários artistas também.

O produtor, compositor e empresário Dudu Borges, 36, um dos responsáveis pelo sucesso do “novo sertanejo” e de suas ramificações no Brasil, pinta o atual cenário com positividade. “A música tem as mesmas notas desde sua criação e ainda assim não se faz o mesmo som. As possibilidades são infinitas e variam conforme instrumento, interpretação, assim como arranjos e produção”, lembra. “Os gêneros continuam existindo, mas ninguém gosta mais de uma coisa só. O lado bom dessa pluralidade é a potencialização da música como negócio e, para o artista, o desprendimento de poder se expressar de diferentes formas”.

E esta geração Z, confundida também com os millennials (idades entre 25 e 38 anos), já ganhava destaque em uma ampla pesquisa em 2015 da agência Ypulse, que entrevistou 1.000 jovens e descobriu que eles não conseguiam listar quais eram seus artistas favoritos. “Esta geração está interessada em todos os gêneros musicais e artistas”, concluiu a pesquisa.

Descobriu-se que, enquanto a geração do milênio é apaixonada por música (76% entre 13 e 17 anos afirmaram que não conseguiriam viver uma semana sem ela), 79% dos entrevistados entre 13 e 32 anos disseram seus gostos não se enquadravam em um gênero musical específico. Apenas 11% disseram que ouviram apenas um gênero de música. “Parece”, observou a Ypulse, quando publicou suas descobertas, “que a geração Z é uma geração sem gênero”.

Playlists

A estudante Julia Boggiss, de 16 anos, se vê como uma pessoa privilegiada por ter acesso à diversas plataformas pra ouvir músicas de todos os gêneros. Foi esta geração dela que também ganhou um ingrediente fundamental para este ecletismo: as playlists. Esse fenômeno influencia até os line ups de festivais pelo mundo todo.

Quando ouvíamos músicas por meio das rádios, buscávamos o gênero que mais nos agradava. Com o streaming, a seleção passou a ser temática. Escolhe-se uma lista para tomar café, escovar os dentes etc. A pesquisa da Sweety High também apontou que 92% das entrevistadas disseram que a música influencia no humor.

Maria Antonia Borges, de 17 anos, é daquelas que ouvem playlists a todo momento: “Eu tenho uma playlist pra cada momento/evento: uma festa, pra ouvir na academia, no caminho de casa até a escola, em viagens. Mas não tenho um gênero preferido, isso depende do momento”.

Não à toa, os festivais mais tradicionais, como Coachella (EUA) ou Primavera Sound (Espanha), se rendem a escalações com pop, rap, rock, metal e country. E muitas vezes esses artistas já até colaboraram entre si.

Nesta década, a fusão entre os rótulos foi tão grande que é difícil precisar quem está fazendo pop, rap, indie, R’n’B, sertanejo ou funk. Até porque é mais provável que todos estejam fazendo de tudo. O eletrônico Skrillex produziu o cantor Justin Bieber, por exemplo. Rihanna regravou Same Ol’ Mistakes dos indies do Tame Impala. Gal Costa e a sertaneja Marilia Mendonça gravaram juntas. A emo Fresno fez parceria com Caetano Veloso.

E se hoje, a geração Z busca referências nas sugestões das plataformas musicais, em playlists, séries e amigos, Marcus Preto coloca dois elementos anacrônicos e “fora da curva” nessa discussão “sem gênero”: “Eu nasci na zona norte de São Paulo e cresci ouvindo rádio. Adorava disco de novela, porque tinha todos os hits juntos num LP só.”

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