Segunda-feira, 13 de julho de 2026

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Geral Caixa vai digitalizar cadernetas de poupança de pessoas escravizadas

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O Arquivo Nacional negocia com a Caixa Econômica Federal um Acordo de Cooperação Técnica para digitalizar os documentos. (Foto: Reprodução)

O Arquivo Nacional negocia com a Caixa Econômica Federal um Acordo de Cooperação Técnica para digitalizar as 158 cadernetas de poupança pertencentes a pessoas escravizadas no século 19.

Os documentos foram localizados durante um levantamento realizado pela Caixa a pedido do Ministério Público Federal (MPF), no âmbito de um inquérito civil que apura a preservação e a destinação desse patrimônio documental.

Os registros revelam nomes, profissões, endereços e movimentações financeiras de pessoas escravizadas que conseguiram formar pecúlio antes da abolição.

Segundo a diretora-geral do Arquivo Nacional, Monica Lima, as tratativas vêm avançando em etapas.

“Além da primeira visita técnica, em que estive presente, tivemos uma reunião com a equipe da Caixa, em formato online. Enviamos em seguida um modelo de acordo de cooperação para que avaliassem.”

A próxima etapa será uma nova inspeção técnica no acervo para avaliar o estado de conservação dos livros contábeis.

A expectativa é que o acordo permita preservar digitalmente o material e ampliar o acesso de pesquisadores e da sociedade a documentos considerados fundamentais para compreender a história da escravidão, a formação do sistema financeiro no país e o destino dos valores depositados nas contas.

Histórias preservadas em cadernetas

Mais do que registros bancários, as cadernetas preservam histórias. Uma delas pertenceu a Lydia, lavadeira de 27 anos, identificada nos documentos como “escrava de Maria Carlota Fortuna”.

O registro indica que ela provavelmente viveu na antiga Rua da Saúde, atual Rua Sacadura Cabral, na região da Pequena África, no Centro do Rio de Janeiro.

As contas revelam uma realidade vivida por parte da população escravizada nos centros urbanos.

Homens e mulheres conhecidos como “escravos de ganho” — autorizados a exercer atividades remuneradas mediante o repasse de parte dos rendimentos aos proprietários — podiam guardar uma parcela do dinheiro obtido.

O pecúlio representava, para muitos, a esperança de comprar a própria alforria ou a de familiares, embora continuassem submetidos ao regime escravista.

“Naquele momento, o que a gente queria entender era justamente como uma pessoa escravizada podia ter uma conta de poupança. Parece contraditório, mas essa era uma realidade possível para alguns escravizados urbanos”, explica a historiadora Keila Grinberg, que pesquisa o tema desde que teve acesso aos documentos durante um projeto desenvolvido para os 150 anos da Caixa Econômica Federal.

A caderneta de Lydia mostra que os valores depositados permaneceram sem movimentação até 1931.

“Então a pergunta continua sendo: o que aconteceu com esse dinheiro?”, questiona a historiadora.

O que investiga o MPF

O Ministério Público Federal instaurou um inquérito civil após receber uma representação de uma organização do movimento negro que questionava o destino das poupanças registradas em nome de pessoas escravizadas.

“O Ministério Público recebeu uma representação que questionava o destino dessas poupanças. Entendemos que era necessário instaurar um inquérito civil para apurar o tema”, afirmou o procurador da República Júlio Araújo.

As negociações entre o Arquivo Nacional e a Caixa ainda não têm prazo para serem concluídas. A assinatura do acordo depende da realização da nova avaliação técnica do acervo.

Nota da Caixa

“A Caixa reconhece a relevância histórica do seu acervo. A instituição preserva esse patrimônio documental buscando ampliar o conhecimento público sobre essa documentação, sempre com cuidado, transparência e responsabilidade institucional. Assim, está em tratativas com o Arquivo Nacional para digitalização, preservação e publicidade do acervo documental.”

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