Quinta-feira, 21 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 1 de dezembro de 2018
A relação entre o presidente eleito brasileiro Jair Bolsonaro com o chefe do Executivo dos Estados Unidos, Donald Trump, tem despertado polêmica. Do lado de Washington, o governo norte-americano espera apoio em questões envolvendo Israel, China e Venezuela. Mas os exportadores brasileiros podem sair perdendo. Já os benefícios para o Brasil, nessa relação, ainda são uma incógnita.
Conforme destacou a Deutsche Welle, uma emissora internacional da Alemanha, na semana que passou, dois acenos foram feitos pelo futuro governo brasileiro a Trump. O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente eleito, esteve nos EUA para se encontrar com importantes figuras do Partido Republicano, como os senadores Marco Rubio e Ted Cruz. Também esteve com Steve Bannon, ideólogo da campanha de Trump, mas hoje afastado do governo.
O próprio Jair Bolsonaro recebeu, no Rio de Janeiro, o assessor de segurança nacional da Casa Branca, John Bolton. Um dos artífices da invasão ao Iraque em 2003, Bolton foi recebido por um Bolsonaro empolgado. Na pauta, temas importantes da política externa trumpista: Cuba, Venezuela, Israel e China.
Em si, a aproximação com os EUA não é exatamente uma novidade na política externa brasileira. O Brasil faz parte da esfera de influência dos Estados Unidos e, ao longo do tempo, a relação teve momentos de maior ou menor intensidade.
As gestões Vargas (1951-1954), Jânio Quadros (1961) e Lula (2003-2010) ficaram conhecidas por tentativas de independência. Os momentos de maior tensão ocorreram em 1977, quando Geisel (1974-1979) rompeu um acordo militar de 25 anos com Washington, e 1987, quando o Brasil governado por José Sarney (1985-1990) foi alvo de sanções por conta da Política Nacional de Informática.
Por outro lado, os governos de Dutra (1946-1951) e Castelo Branco (1964-1967) se notabilizaram pela proximidade com Washington.
Para Giorgio Romano Schutte, professor da Universidade Federal do ABC, não há dúvidas de que a proximidade com Bolsonaro é bem-vinda para a Casa Branca. Ele destaca, por exemplo, que Bolton, um conhecido estrategista da geopolítica, deve fazer uso da boa relação com o Palácio do Planalto para avançar pautas caras a Trump. “Ele vai querer explorar oportunidades em que o Brasil pode ser útil para a agenda internacional dos EUA, como nas questões envolvendo Israel, Irã e Venezuela”, afirmou à Deutsche Welle.
Guilherme Casarões, professor da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo, concorda. “A aproximação é bem recebida pela Casa Branca porque talvez seja o conjunto de concessões mais fácil que Trump retirou de alguém até agora”, diz. “Não me lembro de um governo que, antes mesma da posse, tenha feito tantas sinalizações de mudança de política externa cujo objetivo quase que exclusivo é agradar aos EUA”, comenta.
Contrapartidas ao Brasil
Preocupa os especialistas, no entanto, ser difícil vislumbrar contrapartidas práticas por parte do governo Trump em troca do apoio diplomático brasileiro. “O Brasil espera o retorno do fluxo de investimentos americano para cá e a normalização do comércio, mas os EUA não parecem estar interessados em normalização comercial com ninguém no momento e, além disso, essas questões dependem muito pouco do voluntarismo do presidente dos EUA”, observa Casarões.
Para o professor da FGV, fora do aspecto econômico, há ainda menos justificativas para a guinada na política externa brasileira. “Do ponto de vista político, a rigor, não há nada que os EUA prometam para nós que justifique uma inflexão de política externa neste momento”, afirma. “O que está faltando ao Brasil, fora do âmbito econômico, que os americanos preencheriam?”, questiona.
A resposta para a aproximação passa pelas motivações ideológicas de Bolsonaro e seus assessores.
“O futuro chefe do Itamaraty faz análises [sobre “marxismo cultural” e “globalismo”] curiosas e bastante isoladas no pensamento da política externa brasileira, tanto no Itamaraty quanto na academia”, afirma Schutte. É um pensamento, destaca o professor da UFABC, que dialoga desde antes das eleições com a ala mais radical do governo Trump.
“Essas pessoas se sentem respaldadas pelo fato de que, neste momento, o presidente do país mais poderoso do mundo pensa da mesma forma que elas”, diz Schutt.
Um problema das concessões que Bolsonaro pretende fazer são as eventuais resistências internas a algumas das pautas favorecidas pelos EUA. A mudança da embaixada em Israel, por exemplo, deverá enfrentar novas críticas dos ruralistas, que temem perder o mercado árabe.
As Forças Armadas muito provavelmente rechaçariam uma aventura militar na Venezuela. E amplos setores da economia temem qualquer distanciamento da China, o maior parceiro comercial do Brasil e contra quem Trump promove uma guerra comercial.
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