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Colunistas Artigo: Ideologia e torcida: uma fusão incontornável – a nota 9 para Marcelo Groe

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(Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

O que me leva a escrever esta coluna são os acontecimentos recentes: a crise política e a relação de comentaristas “isentos” com o futebol…e a política.

Hoje a coisa está assim posta nas redes sociais e nos meios tradicionais de comunicação: se você se apega a Constituição ou é a favor de cumprir a lei a todo custo, é logo taxado de petista, petralha, defensor da corrupção e assim por diante. Importantes colunistas não resistiram à sua ideologia e solta(ra)m a franga.

Interessante é que a garantia de ter um justo julgamento e coisas assim só são boas quando são a nosso favor. Mas quando isso está relacionado a gente que odiamos, queremos que se explodam. Até a tortura já pregam. Tem gente defendendo esquadrão da morte. Outros querem julgamentos sumários para os corruptos.

Quando Ministério Público Federal apresenta um pacote anticorrupção e propõe que o habeas corpus seja restringido ao ponto de retornarmos aos tempos ditatoriais, há uma adesão em massa. Viva a quebra das garantias… para os outros. Para nós, tudo. Aos inimigos, os rigores da lei.

Aos amigos, o afago das garantias que estão na Constituição. Aplaude-se a mitigação da prova ilícita, ao ponto de ficar implícito que até a tortura valeria. Engraçado é que no tal pacote não tem nada que impeça o sonegador de tributos de pagar os impostos sonegados quando pego com a boca na butija e escapar do crime. Sim, o Brasil tem leis que o andar de cima da sociedade acha muito “legais”.

A coisa é assim: se um sujeito furta e devolve o produto, é condenado igual. Se o sujeito sonega uma fortuna e devolve em suaves parcelas financiadas pela Viúva, não há mais crime. Lindo isso, não? E não vi mexerem nisso no pacote anticorrupção. Bom, alguém dirá: mas furtar é mais grave do que sonegar. Ah, bom. De todo modo, isso não nos atinge, certo? Nem aos nossos amigos. Nenhum de nós tem amigos ladrões, certo? Já sonegadores, lavadores de dinheiro, bom…deixa prá lá.

Bom, ousei criticar esse pacote de maldades e fui tachado de “defensor da impunidade”. Ora, apenas defendo a Constituição. Ora, essa é a mesma Constituição que concede garantia de aposentadoria, pensões, que garante o direito a mandado de segurança, que garante a liberdade de comunicação dos radialistas e colunistas que dizem que essa Constituição deveria ser banida, etc.

A cabeça dessa gente funciona assim: tudo vira paixão e torcida. Quando o Supremo Tribunal descumpre a Constituição, mas isso me beneficia, o Supremo é “o cara”. Mas quando o Supremo Tribunal erra contra, logo se diz: também, esse Supremo Tribunal está repleto de petralhas…Uma no cravo, uma ferradura. Coerência, zero. Tudo é ideologizado.

O Brasil hoje se divide em bons e maus. E cada um se julga o melhor brasileiro. É como no trânsito: cada um se julga o melhor motorista. Só que a soma de todos esses “bons motoristas” dá nisso que está aí. O trânsito mata mais que a guerra. Mas todos são bons. O sujeito estaciona em fila dupla, mas tem um adesivo no seu carro dizendo: governo corrupto, fora! Sonega imposto de renda e tem um carrão com adesivo: chega de pagar tantos impostos. Putz. Os criminosos e maus são sempre os outros.

Disse tudo isso para lembrar que também no futebol tudo vira torcida. Depois do jogo em que Marcelo Groe fez 3 milagres e mais dois proto-milagres no jogo contra o San Lorenzo, vi em um jornal da Capital a avaliação de sua atuação: nota 9. Bingo. Nada como ser torcedor do Inter e não conseguir segurar, na hora agá, o coloradismo.

Mas, é claro, tudo isso é feito em nome da isenção. Na política também é assim. Nada como uma boa isenção para falar do Brasil. Nada como entrar nas redes sociais e destilar o ódio. E dizer: não tenho nenhuma ideologia, mas….e aí deitar cátedra. No futebol é assim também: não sou gremista nem colorado, mas… e aí destila a sua “isenção”. A nota 9 de Marcelo Groe simboliza o grau de isenção da imprensa desportiva. E assim por diante. Cada um complete este parágrafo. Saludo!

* Lenio Luiz Streck 

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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