Sábado, 19 de setembro de 2026
Por Renato Zimmermann | 19 de setembro de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Talvez uma das coisas mais difíceis de explicar sobre a minha caminhada seja que algumas das escolhas não foram compreendidas por pessoas que me querem bem. Em diferentes momentos da vida, familiares e amigos próximos olharam para determinadas decisões minhas com preocupação.
Afinal, existe uma pergunta absolutamente legítima que acompanha qualquer pessoa que precisa prover a própria vida: “E como você vai se sustentar?” Eu entendo essa preocupação. Ela nasce do afeto, da responsabilidade e, muitas vezes, do desejo sincero de nos proteger. Mas existe uma dimensão da vida que não pode ser medida apenas pela segurança financeira ou pela previsibilidade do caminho.
Tenho consciência de que fiz escolhas que, vistas de fora, podem parecer arriscadas. Já abandonei caminhos aparentemente mais seguros para perseguir ideias nas quais acreditava. Já comecei projetos sem a garantia de que dariam certo. Já dediquei tempo, energia e recursos a causas que talvez não oferecessem um retorno imediato. E, em alguns momentos, provavelmente seria mais fácil ter escolhido aquilo que parecia racional aos olhos de quem observava de fora. Mas existe uma diferença entre uma escolha ser compreendida e uma escolha fazer sentido para quem a realiza. A vida de cada pessoa é construída a partir de circunstâncias, valores, sonhos, inquietações e responsabilidades que nem sempre são visíveis para os outros.
Não digo isso para transformar minhas escolhas em acertos. Seria arrogância acreditar que tudo aquilo que escolhi foi correto. Errei, certamente. Houve decisões que poderiam ter sido diferentes, projetos que não prosperaram como imaginei e caminhos que exigiram mais de mim do que eu esperava. Aprendi, inclusive, que idealismo sem responsabilidade pode ser apenas imprudência. Mas também aprendi o outro lado: prudência demais pode transformar-se em medo, e o medo, quando passa a governar nossas escolhas, pode nos fazer abandonar aquilo que consideramos essencial.
Talvez seja por isso que nunca consegui separar completamente trabalho, propósito e vida. Sempre tive dificuldade de imaginar que passamos a maior parte das nossas horas trabalhando apenas para financiar as poucas horas em que realmente vivemos.
O trabalho também pode ser uma forma de expressão, de contribuição, de aprendizado e de construção de algo que permanecerá depois de nós. Isso não significa desprezar o dinheiro. Ao contrário. Sei da importância da segurança, da provisão e da responsabilidade com aqueles que dependem de nós. O dinheiro é necessário. O que questiono é quando ele passa de instrumento a finalidade absoluta.
Ao longo dos anos, percebi que algumas pessoas podem compreender nossa escolha somente depois que ela produz resultados. Enquanto estamos construindo, porém, muitas vezes enxergam apenas o risco. Talvez seja natural. Quem nos ama costuma olhar primeiro para aquilo que pode dar errado. Eu também aprendi a fazer isso comigo mesmo. A diferença é que, em algum momento, precisamos decidir quanto da nossa vida queremos entregar à tentativa de evitar todos os riscos. Porque existe também um risco silencioso: chegar ao futuro tendo feito tudo aquilo que parecia seguro, mas não aquilo que fazia sentido.
Hoje, quando olho para as escolhas que fiz, não vejo uma trajetória linear. Vejo uma caminhada cheia de desvios, encontros, erros, recomeços e descobertas. Vejo também pessoas que me ajudaram, outras que me questionaram e algumas que talvez nunca tenham compreendido completamente determinadas decisões. Não guardo ressentimento disso. Talvez eu também não tenha compreendido escolhas feitas por outras pessoas. Cada um enxerga a vida a partir do lugar onde está.
O que posso dizer é que continuo tentando construir uma vida que tenha coerência entre aquilo que penso, aquilo que faço e aquilo que acredito que posso oferecer ao mundo. Talvez esse seja o meu conceito de prosperidade. Não apenas acumular recursos, mas conseguir sustentar a própria existência sem precisar abandonar aquilo que dá sentido a ela. Encontrar uma maneira de prover a vida e, ao mesmo tempo, permanecer disponível para aquilo que considero importante.
Ainda estou aprendendo. E talvez essa seja a parte mais honesta desta história: não sei exatamente onde minhas escolhas irão me levar. Sei apenas que prefiro caminhar consciente dos riscos a viver permanentemente protegido deles. Porque, no fim, uma vida não é medida apenas pelo que conseguimos acumular. Também é medida pelo que tivemos coragem de construir.
* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética (Contato: rena.zimm@gmail.com)
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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